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REFLEXÃO PARA O IV DOMINGO DE PÁSCOA – JOÃO 10,1-10


No IV Domingo da Páscoa, a liturgia da Palavra sempre adota um trecho do décimo capítulo do Quarto Evangelho, o que justifica o título de “Domingo do Bom Pastor”, embora possa o mesmo ser questionado, uma vez que leva muitos a confundirem a figura joanina do pastor com aquela usada por Lucas em uma das parábolas da misericórdia (cf. Lc 15,1-7). Para a comunidade joanina, o pastor é, sobretudo, aquele dá liberdade, aponta caminhos e, portanto, jamais alguém que conduz uma ovelha nos ombros, símbolo da dependência e privação da liberdade.

Neste ano, ano A do ciclo litúrgico, o texto adotado é João 10,1-10, a primeira parte do capítulo décimo, o qual não pode ser compreendido se não em relação com o capítulo anterior. Ora, o capítulo nono fora concluído com a corajosa denúncia de Jesus à cegueira dos fariseus, no caloroso conflito gerado em decorrência da cura do cego de nascença (Jo 9,1-41). Para os fariseus e os dirigentes judeus, o gesto libertador de Jesus era uma ameaça aos seus privilégios, por isso, o rechaçaram veemente, mas Jesus não se deu por vencido e, por isso, continuou sua investida, desmascarando-os.

A fórmula de introdução empregada pelo autor, em grego VAmh.n avmh.n – amém, amém, equivocadamente traduzida por “Em verdade, em verdade” (v. 1), indica a importância do que será ensinado; é uma fórmula exclusiva do Quarto Evangelho, empregada sempre no início de declarações importantes de Jesus como uma chamada de atenção para o que será dito. Logo, o conceito de pastor apresentado em Jo 10 é vital para a comunidade joanina, algo que não pode ser esquecido.
À introdução solene, segue a declaração: “Quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante” (v. 1). Com essa afirmação, Jesus está fazendo uma dura acusação e denúncia à ilegitimidade dos chefes religiosos do seu tempo, e aos seus interlocutores, os fariseus (cf. 9,40-41); aplica a imagem tradicional de ovelhas/rebanho ao povo, acusando seus dirigentes de ladrão e bandido.

Como sempre, a tradução do texto litúrgico deixa a desejar: ao invés de redil, o termo mais apropriado seria átrio, correspondente ao termo grego usado pelo evangelista auvlh. – aulê; aqui, não se trata de curral, mas do átrio interno do templo de Jerusalém; outra incoerência da tradução é o uso do termo assaltante; o texto original traz o termo grego lh|sth,j – lestês, o qual designa “bandido”, aquele que assalta e faz uso da violência. Essa observação é importante, pois evidencia ainda mais o teor da denúncia.

As denúncias de Jesus às arbitrariedades do poder religioso de seu tempo foram iniciadas ainda no segundo capítulo de João, no episódio da chamada “purificação do templo” (Jo 2,13-22). Portanto, os ladrões e bandidos do texto de hoje são os mesmos que tinham ajudado a transformar “a casa do Pai em uma casa de negócio” no início do Evangelho (cf. 2,16). São ladrões e assaltantes porque assumiram uma função sem a designação do Pai, ou seja, estão ali, mas não entraram pela porta.

Ao contrário dos dirigentes e dos fariseus, Jesus “entra pela porta e, portanto, é o pastor das ovelhas” (v. 2). De fato, somente Ele recebeu permissão do Pai para, de fato, comunicar-se com as ovelhas, o povo. A Jesus, o único pastor autêntico, “o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (v. 3); é o Pai quem envia e autoriza Jesus a entrar no recinto da falida instituição religiosa para libertar o povo oprimido pelo poder religioso. O primeiro passo nesse processo de libertação é a escuta da voz de Jesus, contida somente no Evangelho; quem realmente escuta o Evangelho, não se permite ser aprisionado nem controlado por nenhum sistema religioso, mesmo que esse se autodenomine cristão. Assim como a comunidade joanina, também as de hoje devem estar atentas ao que lhes é ensinado: quando não for a voz de Jesus, ou seja, o Evangelho, devem repulsar e rejeitar sem medo.

O pastor autêntico “chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (v. 3), ou seja, não trata o povo como massa, mas o tira do anonimato, valorizando a cada um em sua individualidade e liberdade, por isso, chama pelo nome, criando um laço de intimidade. A relação já não é mais entre dominador e dominado, mas entre pessoas que se conhecem e se amam reciprocamente. “Conduzir para fora” é libertar, tirar da opressão, livrar o povo de um poder arbitrário, inautêntico que usa o nome de Deus para explorar e até matar; é dessa situação que Jesus quer tirar todos os que escutam a sua voz; o evangelista usa aqui o verbo grego evxa,gw – exagô, o mesmo verbo do êxodo. Jesus quer, portanto, promover um novo êxodo, denunciando que a elite religiosa do seu tempo era tão maligna quanto o faraó do Egito e seu regime de escravidão.

É interessante perceber o objetivo da libertação proposta por Jesus: a vivência plena da liberdade! Por isso, “ao fazer sair todas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (v. 4); Jesus não quer tirar o povo de um sistema dominante opressor para começar a dominar também; domínio e imposição não fazem parte da sua práxis. Ele liberta e, após a libertação, apenas aponta caminhos, ou seja, Ele “caminha à frente” e, obviamente, quem escutar verdadeiramente a sua voz, ou seja, quem aceitar o Evangelho como proposta de libertação, o seguirá tranquilamente por conhecer uma voz autêntica.

Mais uma vez, ressaltamos o cuidado do evangelista para com a comunidade cristã, para que na mesma não surjam líderes impostores. Onde a voz do Evangelho é conhecida, não há dominadores e dominados, e será esse o traço característico da comunidade cristã. Destituindo o poder da antiga religião, Jesus não propõe nenhuma forma de poder para sua comunidade; Ele quer apenas que essa seja livre, autônoma e capaz de discernir e optar pelo bem, ou seja, pelo Evangelho, o qual, como única voz de Jesus, dispensa todo código ou sistema doutrinal e moral, mesmo que elaborado em seu nome. Por isso, Ele não tira o povo do sistema religioso judaico para inserir em um outro sistema, mas para a liberdade.
Conforme Jesus já tinha denunciado no capítulo anterior (cf. 9,40-41), o sistema opressor é cego e leva os que estão sob seu domínio também à cegueira, por isso, “não entenderam o que Jesus queria dizer” (v. 6) com essa comparação. Embora a versão litúrgica afirme, não se trata de uma parábola, mas de uma comparação apenas, como consta no texto grego, o qual aplica o termo paroimi,a – paroimía, que quer dizer apenas comparação.

Diante da cegueira e da falta de compreensão de seus interlocutores (cf. 9,40-41; 10,6), Jesus passa a falar de modo mais claro e objetivo, apresentando-se como a própria porta (v. 7). De fato, como único mediador entre a humanidade e o Pai, Ele pode mesmo reivindicar para si a função, embora simbólica, de porta, pois é Ele e seu Evangelho o critério único de pertença ao Pai. A denúncia aos que se auto intitulavam representantes de Deus na terra continua, ao chamá-los de ladrões e bandidos e anunciar o fim do antigo sistema (v. 8); esses estão sendo desmascarados e caindo em descrédito, à medida que a voz de Jesus vai sendo ouvida, através do Evangelho.

À medida que repete sua autoafirmação como “a porta”, em grego h` qu,ra -  hé thyra, (v. 9), Jesus ressalta a falência da instituição religiosa; como o Evangelho e a lei são inconciliáveis, e “só será salvo quem entrar por Ele”, porque somente assim alguém poderá “entrar e sair”; aqui, Ele apresenta o grau máximo de liberdade, ou seja, só será plenamente livre quem ouvir sua voz, passando por Ele e vivendo a proposta de vida contida no Evangelho. O movimento de entrar e sair é a expressão máxima de liberdade e, ao mesmo tempo, oposição à lei que aprisionava e até matava. A pastagem que se encontra quando passa por Ele é a liberdade e a vida plena e abundante que Ele quer nos comunicar (v. 10). A vida em abundância é, na verdade, a vida livre, digna e plena de amor, para a qual o Evangelho direciona e da qual a lei privava o ser humano. Não se trata de uma vida para o além, mas da realização plena do ser humano em sua vida neste mundo.

Podemos dizer, à guisa de conclusão, que em nossas comunidades a voz do Pastor, o único, é ouvida quando a verdade e o amor superam qualquer código de moral e doutrina pré-concebidos, mesmo que em nome de Deus. Jesus é porta em nossas comunidades quando não há segregação, nem discriminação nem exclusão. Somos comunidades guiadas por Jesus, quando a única proposta que nelas se apresentam estão de acordo com o Evangelho e as pessoas podem entrar e sair livremente.


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues