Neste
décimo quarto domingo do tempo comum, a liturgia retoma a leitura semi-contínua
do Evangelho de Marcos, interrompida no último domingo, por ocasião da
solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. O texto lido neste domingo – Mc 6,1-6 –
corresponde ao episódio da visita de Jesus a Nazaré, em dia de sábado,
acompanhado de seus discípulos. Na oportunidade, ele sofreu forte oposição dos
seus conterrâneos, os quais tentaram desqualificar sua mensagem e o seu agir.
Esse texto ocupa uma posição estratégica no conjunto do Evangelho de Marcos. O
episódio retratado pode ser considerado até um divisor de águas no ministério
de Jesus, pois o que vem logo após esse aponta para uma mudança de rumo e
estratégia na sua missão, com o envio missionário dos Doze (6,7-13), o qual
será lido na liturgia do próximo domingo. Contudo, antes de recordar o que vem
depois, é importante lembrar o que vem antes do episódio de hoje: a cura da
mulher hemorroíssa e a reanimação da filha de Jairo (5,21-43). Esses dois
milagres aconteceram logo após Jesus fazer a travessia de retorno do território
dos pagãos, junto com seus discípulos, cuja viagem de ida fora marcada pela
tempestade que ameaçou a barca e ele a acalmou (4,35-41).
A
localização estratégica de um episódio nos evangelhos é sempre um indicativo de
importância para o conjunto do livro, o que se verifica no texto de hoje. Outro
dado que aponta para a sua importância na vida de Jesus é o fato de tratar-se
de um episódio transmitido também pelos outros sinóticos (Mt 13,53-58; Lc
4,16-30). No Evangelho de Lucas, por exemplo, esse episódio foi transformado no
evento programático e inaugural do ministério de Jesus. Por isso, ele o
transferiu para o início da obra. Contudo, é mais lógica e plausível a posição
que este episódio ocupa em Marcos e Mateus, ou seja, quando a atividade de
Jesus já estava em pleno desenvolvimento e as notícias sobre a sua mensagem e o
seu agir libertador já tinham se espalhado pela Galileia e, por isso, tinham
repercutido também em Nazaré. Inclusive, seus familiares já tinham recebido
notícias sobre o seu agir pouco ortodoxo, por isso, certa vez, saíram à sua
procura, com objetivo de prendê-lo, imaginando que estivesse louco (Mc
3,20-31). Também a hierarquia religiosa de Jerusalém já estava a par da sua
atividade, fiscalizando e vigiando o seu agir, por considerá-lo subversivo e
herético e, por isso, perigoso para o sistema.
Uma vez
apresentados alguns elementos a nível de contexto, voltamos a atenção para o
próprio texto, partindo do primeiro versículo, no qual se diz que «Jesus foi
a Nazaré, sua terra, e seus discípulos foram com ele» (V. 1). Aqui,
chamamos a atenção para uma primeira incoerência da tradução litúrgica, pois a
palavra Nazaré não aparece no texto original. O que o evangelista diz é que
Jesus foi à sua pátria (em grego: πατρίς – patrís), o que deve ser
compreendido como a terra natal. Contudo, sabemos que a terra natal de Jesus
era um pequeno vilarejo chamado Nazaré (Mc 1,9). Somente Lucas menciona Nazaré
explicitamente neste episódio, certamente por razões mais teológicas do que históricas
e geográficas (Lc 4,16). É muito provável que a ausência do nome Nazaré, neste
contexto, em Marcos e Mateus, seja proposital, visando ampliar a dimensão do
evento, transformando a rejeição dos nazarenos em projeção da rejeição de
Israel à mensagem de Jesus. De fato, o apego exagerado às tradições e o
fechamento às novidades do Reino foram as principais atitudes de Israel diante
da mensagem libertadora e humanizante de Jesus. Por isso, na rejeição de um
pequeno povoado, o evangelista prefigura a rejeição futura de todo o país,
sobretudo das autoridades, cujo desfecho será a morte de Jesus.
Como era
seu costume, «quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga» (v.
2a). Ao contrário de Lucas, Marcos não faz qualquer referência ao conteúdo do
ensinamento de Jesus, mas o leitor do seu Evangelho já sabe que a pregação dele
consistia no anúncio da chegada do Reino de Deus e o apelo à conversão (Mc
1,15). É importante recordar que essa é a última vez que Marcos mostra Jesus
ensinando numa sinagoga. Isso reforça o quanto esse episódio é relevante, pois
parece delimitar um antes e um depois na vida de Jesus. A reunião litúrgica do
sábado na sinagoga, além da oração, era também uma ocasião para as pessoas se
reencontrarem, se saudarem. Como fazia tempo que Jesus não retornava à sua
terra, era de se esperar que fosse bem acolhido, saudado por todos, afinal, num
povoado pequeno todos se conheciam, como o texto vai mostrar mais adiante.
Quanto à acolhida, parece até que houve um certo entusiasmo, no início da
pregação: «Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: “De onde ele
recebeu tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que
são realizados por suas mãos?”» (v. 2bc). Os questionamentos, enquanto
consequência da admiração, confirmam que a fama de Jesus enquanto pregador e
operador de milagres já tinha realmente se espalhado e os nazarenos estavam
constatando, porém, sem acreditar ser possível, pois lhe faltavam credenciais
razoavelmente aceitáveis, como uma origem que lhe rendesse prestígio social e
religioso.
Ao
questionarem precisamente a origem do conhecimento e da sabedoria de Jesus, bem
como dos milagres realizados, seus conterrâneos preparam o rechaço, pois não o
viam habilitado para fazer tudo aquilo, pois ele era apenas uma pessoa simples,
como eles, como fica evidente no versículo seguinte: «“Este homem não é o
carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão?
Suas irmãs não moram aqui conosco?” E ficaram escandalizados por causa dele»
(v. 3). Aqui são apresentados os traços comuns de Jesus, o que parece
contradizer os atributos anteriormente identificados nele, para a mentalidade
dos seus conterrâneos. A primeira característica é sua identificação como
carpinteiro, embora não seja o termo mais adequado para traduzir a palavra
grega empregada pelo evangelista (τέκτων – tékton). De fato, essa palavra
significa artesão, o que pode incluir uma variedade de habilidades, incluindo,
além de carpinteiro, marceneiro, pedreiro e construtor. Como era difícil a
sobrevivência com apenas uma atividade, geralmente se fazia um pouco de tudo,
sobretudo nos lugares pequenos como Nazaré. Anteriormente, os nazarenos tinham
se admirado com os milagres feitos pelas mãos de Jesus, agora recordam sua
condição de artesão, imaginando que de suas mãos simples, que deveriam estar
cheias de calos, não era possível sair milagres, não poderiam conter força de
salvação.
Da
profissão como primeiro elemento de contraste com as qualidades identificadas,
seus contestadores passam a citar os parentes conhecidos que viviam no lugar,
também como contradição ao que ele estava demonstrando. O identificam
pejorativamente como o “filho de Maria”, apenas. Para a mentalidade da época,
referir-se a alguém sem mencionar o pai era uma demonstração de desprezo. As
pessoas eram identificadas pelo nome do pai, o chefe do clã, mesmo quando esse
já tivesse morrido. O nome da mãe não tinha importância alguma para a
sociedade, na época. Inclusive, poderia tratar alguém a partir do nome da mãe
era indicação de que o filho era ilegítimo. Porém, o evangelista se serve desse
artifício para recordar a origem divina de Jesus, não o associando a um pai
humano. Quer dizer que Jesus é filho de Maria porque seu Pai é somente Deus, e
os isso os nazarenos não conseguiam compreender nem aceitar. A referência aos
outros parentes próximos, chamados de irmãos e irmãs, só reforça a condição de
homem comum que Jesus era, como viam seus conterrâneos. Imaginavam que, sendo
Jesus parente de gente comum do povoado, não poderia ser um enviado de Deus,
logo, não teria como ser o Messias esperado, que deveria vir ao mundo como um
guerreiro e potente. O embate entre as diversas tradições cristãs sobre o grau
de consanguinidade desses parentes mencionados é totalmente desnecessário e sem
sentido.
Até então,
Jesus tinha recebido oposição severa das autoridades religiosas e da família,
apenas. Do povo, em geral, tinha recebido boa aceitação por onde passava. Esse
episódio de Nazaré apresenta a primeira oposição coletiva à sua mensagem. Para
a mentalidade provinciana dos habitantes de Nazaré, o que deveria ter nas mãos
de um simples artesão seria calos, e não capacidade de operar sinais
extraordinários. Embora ali não tenha feito milagres (v. 5), a sua fama já
tinha chegado como milagreiro. Sendo Jesus uma pessoa simples, tendo crescido
em um vilarejo simples, não era normal que ele tivesse tamanha sabedoria e,
muito menos, que fosse o Messias. Jesus reage à oposição dos seus conterrâneos
com um provérbio: «Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus
parentes e familiares» (v. 4). Para ele, não era surpresa um profeta ser
rejeitado em sua terra, por parentes e conhecidos. Esse provérbio nasceu e
amadureceu a partir da própria vivência dos profetas ao longo da história de
Israel. Os principais exemplos dessa experiência de rejeição na própria terra
foram Jeremias (cf. Jr 11,18-23; 12,6) e Ezequiel (cf. Ez 2,2-5). Com isso, ele
prepara os seus discípulos para envio missionário que vai ser feito a seguir:
também eles deverão sofrer rejeições por onde passarem. Ser rejeitado se torna
a sina de quem permanece fiel a Deus e à missão por ele confiada. O que Marcos
aqui constata em forma de narração, João antecipa poeticamente no prólogo do
seu Evangelho, apresentando Jesus como a Palavra que se fez carne: «Veio
para o que é seu, mas os seus não a acolheram» (Jo 1,11).
A rejeição
a Jesus bloqueia a ação salvífica de Deus, o que significa que ele tenha se
tornado impotente. O evangelista diz que «ali não pôde fazer milagre algum.
Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos» (v. 5). Isso quer dizer,
acima de tudo, que ele não teve oportunidade, o clima criado ao possibilito que
ele se revelasse plenamente como o verdadeiro enviado de Deus. Ora, os milagres
de Jesus não eram meras demonstrações de poder e força, mas comunicação de Deus
com a humanidade, e isso exigia interação e reciprocidade através da fé. Jesus
se sentiu bloqueado, não imune de força, mas impedido de interagir, porque o
Deus que ele veio revelar é alguém que se comunica, se relaciona com o ser
humano de modo pessoal, e não através de sinais grandiosos. A fé é adesão à sua
proposta de vida. Se a reação dos habitantes de Nazaré foi de perplexidade,
também Jesus «admirou-se com a falta de fé deles» (v. 6a). A falta de fé
é o fechamento ao seu amor humanizante, a incapacidade de adesão à sua
mensagem; aqui, significa o fechamento e a dureza de coração, a insensatez. E,
diante de toda essa rejeição recebida, a resposta de Jesus é a missão: «Jesus
percorria os povoados da redondeza, ensinando» (v. 6b). Como em Nazaré ele
diagnosticou que Israel todo padecia, eis que reagiu a isso indo ao encontro de
mais povoados, e enviando também os Doze com a mesma autoridade com que ele
mesmo agia, como refletiremos no próximo domingo.
Os
habitantes de Nazaré rejeitaram Jesus porque ele lhes apresentou um Deus
acolhedor, misericordioso, justo e simples, fora dos esquemas apresentados
pelas tradições de Israel. O Deus de Jesus não age pela força, nem pela
imposição, mas se revela na simplicidade e na pequenez. Os nazarenos não
reconheceram a simplicidade e o cotidiano coo lugar privilegiado de revelação
de Des. O erro dos habitantes de Nazaré é repetido pelos cristãos quando
imaginam e desejam uma Igreja triunfante, forte e poderosa. Que o Evangelho de
hoje nos ajude a compreender e viver o que é essencial para a nossa fé, e a
acolher a grandeza de Deus que se revela na pequenez.
Pe.
Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Obrigado, Pe. Francisco Cornélio, por ajudar-me e a tantos a preparar a homilia. Suas reflexões são bem fundamentadas, além de muito claras e bem escritas. Seu trabalho é muito útil à Igreja!!!
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