O evangelho deste décimo
quinto domingo do tempo comum é Mc 6,7-13, texto que relata o primeiro envio
missionário dos Doze apóstolos por Jesus, sendo, por isso, paradigmático para a
missão cristã em todos os tempos. Trata-se de um episódio comum aos três
evangelhos sinóticos, sendo a versão de Marcos considerada mais original,
sobretudo por ser a mais antiga, servindo de base para os outros (Mt 10,1.9-14;
Lc 9,1-6). Para compreendê-lo adequadamente, é necessário inseri-lo no devido
contexto, como faremos a seguir. E começamos recordando o episódio anterior: a
ida de Jesus com os discípulos à sua terra natal, Nazaré, num dia de sábado,
quando ele foi desacreditado e rejeitado pelos seus conterrâneos, enquanto
pregava na sinagoga (Mc 6,1-6), conforme refletimos no domingo passado. Ao
sentir-se rejeitado enquanto portador da Boa Nova de Deus, e até
ridicularizado, como foi, a reação de Jesus não foi de desespero, nem de
condenação, mas uma tomada de consciência de que havia muito mais a ser feito,
os esforços deveriam ser ainda mais intensificados daquele momento em diante.
Era necessário, portanto, que a missão fosse ampliada com urgência. Ora, Jesus
sabia que a rejeição sofrida em Nazaré, marcada pela incredulidade dos seus
conterrâneos na sinagoga, não era um caso isolado, mas um retrato de todo o
Israel. Diante disso, tomou a decisão de enviar seus discípulos, especialmente
o grupo dos Doze, para que sua missão se expandisse e os sinais do Reino de
Deus frutificassem com mais urgência.
Ainda a nível de contexto, é
importante recordar que, quando constituiu o grupo dos Doze, Jesus lhes
conferiu duas atribuições: «E constituiu Doze para estarem com ele e para
enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios» (Mc 3,14).
Como se vê, o discipulado comporta duas dimensões essenciais: o “estar com
Jesus” e a missão. A missão, ou seja, o “ser enviado” é consequência do “estar
com ele”. Ora, até aqui, no capítulo sexto, os Doze tinham apenas estado com
Jesus, acompanhando-o na sua itinerância, escutando a sua pregação e observando
os sinais realizados. Em outras palavras, até então eles estavam aprendendo com
Jesus, vivendo o indispensável processo formativo, o que revela as habilidades
pedagógicas de Jesus e serve de advertência para a comunidade cristã em todos
os tempos, pois o anúncio do Evangelho não pode ser improvisado. Antes do
envio, os discípulos vivem um intenso processo de formação estando com Jesus,
no qual, mais do que aprender conhecimentos teóricos, eles são humanizados pelo
estilo de vida do mestre. O episódio de Nazaré fez Jesus perceber que tinha
chegado o momento de enviá-los, pois a necessidade era grande. Jesus sabia que
eles ainda não estavam totalmente prontos, pois no prosseguimento do Evangelho
lhes fará diversas correções e advertências pelas incoerências percebidas (Mc
8,33; 10,35), mas isso faz parte de todo processo pedagógico, daí a necessidade
da formação permanente em todos os âmbitos da existência. Era necessário fazer
uma primeira experiência de missão, tendo em vista as exigências das
circunstâncias.
Como já foi acenado, ao
invés de fechar-se diante da rejeição sofrida, Jesus toma consciência da
necessidade de ampliar o arco da sua missão, por isso, diz o evangelista que
ele «chamou os Doze, e começou a enviá-los dois a dois» (v. 7a).
Certamente, na Galileia havia muitos outros povoados com gente fechada e
incrédula como em Nazaré. O envio dos discípulos visa fazer a Boa Nova chegar a
mais lugares simultaneamente, o que reforça a urgência da instauração do Reino.
Por isso, Jesus chama os Doze e os envia dois a dois para enfatizar a dimensão
comunitária da fé. É significativo o emprego do verbo chamar, aqui, uma vez que
o chamado vocacional já tinha acontecido há certo tempo. Com efeito, os Doze já
eram discípulos, mas o evangelista quer apresentar o chamado como uma novidade
contínua e é assim que o discípulo deve se sentir: chamado todos os dias para
ser sinal do Reino no mundo, partilhando com todos a experiência fundante do
discipulado que é o “estar com Jesus”. De fato, Jesus os chama para estar com
ele e, em seguida, para enviá-los. O andar dois a dois já constitui uma
primeira evangelização, pois significa fraternidade, é a superação do egoísmo e
da autossuficiência. De acordo com a Lei, o testemunho de pelo menos duas pessoas
era necessário para confirmar um fato (Dt 17,6; 19,15), mas não é esse o
sentido aplicado nesta passagem, como alguns estudiosos chegaram a defender.
Para Jesus e sua comunidade, o mais importante aqui era a dimensão comunitária
da vivência da fé. Não há espaço para individualismos na vida da comunidade
cristã. A fé deve ser vivida e testemunhada em espírito de partilha, ou seja,
comunitariamente. Andando dois a dois, os discípulos têm mais possibilidades de
recordar que os dons do Reino não são propriedade deles, mas pertencem a Deus.
E Jesus confere aos
discípulos os mesmos dons que recebeu do Pai, e os capacita a tornarem real a
sua própria presença durante a missão: «dando-lhes poder sobre os espíritos
impuros» (v. 7b). Esses espíritos impuros são todas as forças do mal
presentes no mundo, é tudo aquilo que gera violência, injustiça, exclusão,
morte e preconceito; é tudo o que impede o ser humano de uma relação saudável
com o Deus da vida, com o próximo e consigo mesmo; por isso, se constituem como
obstáculos à realização do Reino de Deus. Logo, devem ser combatidos pelos
seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. Muitas vezes, esses elementos são
criados pela própria religião, como a segregação e condenação por doenças
físicas e psíquicas, bem como pela condição social. O poder (em grego: ἐξουσία – exousia) conferido sobre
tudo isso é o mesmo que o próprio Jesus já exercia. Na verdade, ao invés de
poder, o termo mais apropriado é autoridade, o que significa ter liberdade e
direito de agir. Nada tem a ver com domínio, força ou imposição. E como o
próprio texto deixa claro, não se trata de um poder sobre as pessoas, mas de um
poder sobre as forças do mal, que escravizam e privam o ser humano de sua
liberdade e dignidade plenas. Portanto, Jesus não envia seus discípulos para
dominarem nem submeterem as pessoas a uma doutrina, mas para atuarem com
liberdade e pela liberdade das pessoas. Enfim, a autoridade e a missão dos
discípulos de Jesus no mundo consistem em fazer-se agentes de humanização.
E o envio comporta algumas
recomendações, das quais depende o êxito da missão: «Recomendou-lhes que não
levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem
dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas
túnicas» (vv. 8-9). Essas recomendações refletem o estilo de vida que devem
adotar os discípulos e discípulas de Jesus. A austeridade e simplicidade é
exigência indispensável para o cumprimento da missão conferida por Jesus, pois
foi assim que ele mesmo viveu, pobre entre os pobres. Somente vivendo assim se
assemelha a ele, e ser discípulo é, acima de tudo, assemelhar-se ao mestre.
Isso quer dizer que o discípulo não deve ter outra preocupação além do anúncio
do Reino, por isso deve deixar de lado tudo o que possa distraí-lo e torná-lo
sobrecarregado. E a simplicidade ajuda a manter o foco naquilo que é essencial,
além de revelar total confiança na providência de Deus. Desprovidos de qualquer
segurança e conforto, os discípulos missionários sentem a necessidade de
adaptação ao que lhes for oferecido. Especificamente nas recomendações práticas
aos discípulos para a missão é onde se encontram mais particularidades de cada
evangelista. Somente em Marcos consta a recomendação para que os discípulos
levem um cajado e andem de sandálias. Ora, ao mandar que os discípulos andem de
sandálias, Jesus reforça o caráter itinerante da sua missão, apresentando-a
como um constante caminhar. Com isso, ele ensina que o lugar do discípulo não é
o lar com seu conforto, mas a estrada com seus perigos e adversidades, o que
torna necessário também o uso do cajado, sobretudo para que os missionários se
proteja de animais ferozes e se apoiem nos terrenos acidentados. A missão é
desafiadora não apenas no contato com pessoas e realidades diferentes, mas
também nos deslocamentos. Por isso, o cajado e as sandálias são essenciais.
Ora, embora a casa tenha um lugar privilegiado na teologia de Marcos, essa não
está relacionada a estabilidade ou conforto; significa o espaço de encontro
fraterno, em oposição à sinagoga. Mas o verdadeiro lugar do discípulo de Jesus
é a estrada, pois a Igreja nasceu para estar em saída, levando adiante o estilo
de vida de Jesus.
Escrito cerca de três
décadas após a morte e ressurreição de Jesus, o Evangelho de Marcos já reflete
uma tendência preocupante para a comunidade cristã: o distanciamento do estilo
de vida de Jesus em seus seguidores. Ao recordar essas recomendações de Jesus
aos discípulos, o evangelista quis reforçar o que é essencial, chamando a
atenção da comunidade para não se distanciar do modelo de vida que Jesus viveu
e propôs. Além do estilo de vida, o evangelista também se preocupava com outros
elementos importantes que corriam o risco de desaparecer da comunidade, como a
hospitalidade, por exemplo. Por isso, recordou também as palavras de Jesus
sobre essa dimensão da vida cristã: «E Jesus disse ainda: “Quando entrardes
numa casa, ficai ali até vossa partida”» (v. 10). Aqui, além de advertir os
discípulos missionários para aceitarem o que lhes for oferecido como
hospedagem, também chama a atenção da comunidade para acolher os peregrinos e
missionários nas casas. Se estabelece, assim, uma reciprocidade na missão e na
edificação do Reino. É necessária uma real inserção nas diversas realidades
pelos discípulos, de modo que se sintam família na casa em que forem acolhidos,
permanecendo nela enquanto estiverem no mesmo povoado ou cidade. Permanecer
quer dizer criar relações e laços duradouros. Da mesma forma, é necessário que
as casas dos membros da comunidade estejam sempre disponíveis para a acolhida
dos missionários, peregrinos e necessitados.
Tendo sido rejeitado em seu
próprio povoado, Jesus via a rejeição como uma possibilidade bem concreta e
possível também para os discípulos, por onde passassem, por isso os preveniu: «Se
em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes,
sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles» (v. 11). Essa
recomendação reflete bem o momento vivido por Jesus em Nazaré. Ainda chocado
(Mc 6,6) com a rejeição ali recebida, em meio aos seus conterrâneos, ele
alertou os discípulos a não insistirem, pois devem respeitar a liberdade das
pessoas; o Reino é anunciado e oferecido, mas não pode ser imposto. Mais uma
vez, o evangelista aproveita também essas mesmas palavras para combater a
tendência na comunidade de afastar-se do princípio da hospitalidade. Todos
devem estar disponíveis a acolher o peregrino, sobretudo, quando esse é
portador da Boa Nova do Reino, como os discípulos missionários de Jesus. O
«testemunho contra» não é uma forma de condenação, mas a confirmação de que o
Evangelho foi proposto, porém foi rejeitado. As consequências para quem rejeita
o Evangelho é viver privado do amor e da bondade de Deus, essenciais para o
sentido da vida. Contudo, essa privação não se dá porque o amor de Deus
diminua, mas porque a pessoa não quer experimentá-lo. O amor de Deus é sempre
intenso por todas as pessoas, sendo acolhido ou não. Considerando a
radicalidade do Evangelho, a rejeição ao anúncio sempre existirá. O gesto de
sacudir a poeira dos pés recorda a prática dos judeus quando passavam por algum
território pagão.
Dadas as instruções de
envio, diz o texto que «Então os doze partiram e pregaram que todos se
convertessem» (v. 12). Quanto ao conteúdo específico da pregação, o
evangelista não entra em detalhes. Apenas diz que consistia num anúncio de
conversão. Ora, conversão (em grego: μετάνοια– metanoia) significa
mudança de mentalidade e pensamento. A adesão aos valores do Evangelho exige
rupturas com a maneira tradicional de pensar e compreender as coisas, sobretudo
a relação com Deus. Jesus percebeu em Nazaré que era urgente que aquele povo
passasse por um processo de conversão, passando a um jeito novo de conceber o
mundo, a vida e Deus. Por isso, enviando seus discípulos a outros povoados,
propõe que todas as pessoas passem por esse processo. Com a mentalidade antiga,
conservadora, apegada à lei, era impossível acolher a novidade do Reino de
Deus. Embora o texto mencione apenas o chamado à conversão como objeto da
pregação dos discípulos, certamente eles anunciaram o que tinham aprendido com
Jesus até então, ou seja, os mistérios do Reino e a urgência da sua
implantação, como Jesus tinha anunciado em parábolas (Mc 4,1-34). A conversão é
pressuposto para acolhida do Reino com seus traços característicos essenciais: justiça,
igualdade, fraternidade e amor.
Imediatamente, o evangelista
já antecipa o resultado da missão, por sinal, bastante positivo: «Expulsavam
muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo» (v. 13).
Como se vê, o resultado da missão possui duas vertentes principais, além do
anúncio: a dimensão exorcística e a terapêutica, ou seja, expulsão de demônios
e cura de doentes. Tudo isso aponta para a humanização do mundo, meta do
Evangelho. A principal razão para chegar a tais resultados é a fidelidade ao
que foi recomendado. Quando a proposta de conversão proposta pelo Evangelho é
aceita, os sinais do Reino de Deus se evidenciam. O evangelista pensa na sua
comunidade, sobretudo: perseguições do império e hostilidade dos judeus. Ora,
com muita probabilidade, o Evangelho de Marcos foi escrito em Roma, durante o
reinado de Nero, quando os cristãos viveram a primeira grande perseguição. Era
uma época em que o mal prevalecia explicitamente e a ação dos cristãos parecia
ter pouco efeito no combate. Diante disso, o evangelista quis ensinar que, se
as palavras de Jesus forem realmente vividas, muitos resultados serão
alcançados. O mal não tem a última palavra. A recomendação do uso do óleo neste
episódio é mais um elemento recordado apenas por Marcos. Parece um detalhe
proposital para diferenciar do agir de Jesus, o qual bastava impor as mãos, sem
uso de qualquer recurso medicinal. Como se sabe, o uso do óleo como um elemento
medicinal e terapêutico era muito comum na antiguidade e o cristianismo
conservou essa tradição, adotando-o como elemento sacramental (Lc 10,34; Tg
5,15). Os doentes são, em Marcos, a síntese da pessoa necessitada e excluída e,
por isso, são os destinatários privilegiados do anúncio da Boa Nova, que não é
a propagação de uma doutrina, mas um processo de humanização e emancipação por
meio do amor.
Ao ler e meditar hoje esse
trecho do Evangelho de Marcos, a comunidade cristã é convidada a refletir sobre
a sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus e ao seu envio, para recuperar
aquilo que é realmente essencial à vida cristã. No mundo de hoje, marcado pelo
individualismo e pela competitividade, não faltam questionamentos sobre a
eficácia do anúncio cristão. A única resposta adequada a esses questionamentos
é a coragem dos cristãos e cristãs para voltarem a viver à maneira de Jesus,
como ele mesmo recomendou aos primeiros discípulos enviados.
Se em apenas três décadas
após a morte de Jesus, Marcos percebeu que sua comunidade já dava sinais de
distanciamento da sua proposta de vida, muito mais pode ser percebido depois de
dois mil anos. Por isso, a necessidade de conversão é cada vez mais urgente.
Que possamos, enquanto cristãos e cristãs, identificar os males que nos impedem
de viver radicalmente o que Jesus propõe, e combatê-los, para o Reino de Deus
ser de novo experimentado e vivido.
Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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