quarta-feira, abril 01, 2026

REFLEXÃO PARA A QUINTA-FEIRA SANTA, NA CEIA DO SENHOR – Jo 13,1-15



Todos os anos, para a missa vespertina da Quinta-feira Santa, a liturgia propõe a leitura de Jo 13,1-15. Esse texto corresponde ao relato do lava-pés, um episódio exclusivo do Evangelho segundo João e, sem dúvidas, uma das passagens mais emblemáticas de todo o Novo Testamento. Trata-se de uma passagem altamente rica em significado teológico e arte narrativa, e tudo isso contribuiu bastante para a alta popularidade que possui. De fato, desde os primeiros séculos, esse texto tem marcado a história do cristianismo, inclusive, recebendo diversas possibilidades de interpretação. Antes de tudo, podemos dizer que é um episódio profundamente comprometedor para os cristãos de todos os tempos, pois mostra que, no momento mais decisivo da sua existência terrena, Jesus propôs o serviço, motivado pelo amor, como o principal sinal distintivo de pertença a si; a religião dos seguidores de Jesus, portanto, não pode ignorar esse fato. E tanto a localização quanto o contexto da cena reforçam ainda mais a sua importância: conforme a divisão clássica do Quarto Evangelho em duas grandes partes – “Livro dos Sinais” (Jo 1 – 12) e “Livro da Glória” (Jo 13 – 21) –, o relato do lava-pés inaugura o “Livro da Glória”, introduzindo a narrativa da paixão de Jesus.

A modo de introdução, apresentamos uma breve contextualização para, em seguida, voltarmos a atenção diretamente para o texto. A princípio, podemos dizer que chega a causar espanto a diferença entre a obra de João e os demais evangelhos quando se trata da última ceia de Jesus com seus discípulos. Ora, ao contrário dos sinóticos (Mt, Mc e Lc), que dedicam poucos versículos à ceia, João dedica cinco capítulos inteiros: de 13 a 17, totalizando 155 versículos. Ao longo deste amplo material narrativo, ele apresenta uma longa e profunda catequese de Jesus, ministrada com gestos e palavras, em forma de testamento, cujo tema central é o amor e o serviço, apresentados como únicos sinais distintivos da comunidade cristã. É importante recordar que no Evangelho de João não há qualquer aceno à “consagração” do pão e do cálice, como nos demais evangelhos; por sinal, durante a ceia, o pão só é mencionado na descrição da traição de Judas (13,18.17.26.27.30). Essa ausência de referências ao pão e sua “consagração” pode ser explicada pelo fato de que João já havia feito em outra ocasião, precisamente após o sinal da “multiplicação dos pães” (6,1-15). Naquela ocasião, o evangelista apresentou um longo discurso de Jesus se autoapresentando como o “pão da vida” (6,26-66). Por isso, já não havia mais necessidade de fazer uma nova catequese sobre o pão e sobre a entrega de Jesus como alimento, uma vez que essa já tinha sido feita.

O texto começa com um indicativo teológico-temporal altamente relevante: «Antes da festa da Páscoa» (v. 1a). O evangelista não nega o contexto pascal no qual Jesus fez a ceia com seus discípulos pela última vez, mas pretende diferenciar, ou seja, quer dizer que a Páscoa celebrada por Jesus já não é mais a mesma do templo. Inclusive, desde muito cedo, o evangelista costumava referir-se à festa da Páscoa com a qualificação de “páscoa dos judeus” (2,13; 11,55), distanciando Jesus das instituições de Israel que tinham desfigurado o rosto de Deus. Agora, ele apresenta Jesus próximo da Páscoa, mas da sua própria Páscoa, tornando-a uma festa da vida, como sempre deveria ter sido. Por isso, Jesus celebra a Páscoa doando a sua própria vida, uma vez que é ele o verdadeiro Cordeiro de Deus, imolado por amor. A Páscoa de Jesus, portanto, não exige ofertas nem sacrifícios, não é instrumento de exploração como tinha se tornado o aparato ritual do templo. Celebrando sua Páscoa antes, Jesus substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois da sua pelos praticantes da religião oficial perdeu a sua validade, já não tem mais sentido. Na Páscoa do templo, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros, enquanto na Páscoa de Jesus com sua comunidade se celebra o triunfo da vida em forma de serviço, a mais eficaz manifestação visível do amor. Nessa, não há morte, há vida, e vida doada por amor. Morte é coisa da antiga aliança; na nova aliança, há doação de vida. Com essa introdução, o evangelista alerta para uma novidade: Jesus inaugura uma nova Páscoa, profundamente subversiva, por sinal. E é essa Páscoa que a comunidade cristã deve viver e celebrar sempre.

Ao longo de todo o seu Evangelho, João criou um clima de suspense em relação à «hora de Jesus», anunciando que tudo o que Jesus fazia era preparação para esse momento, e sempre advertia o leitor que ainda não tinha chegado a hora (2,4; 7,30; 8,20; 12,23). De agora em diante, tanto o narrador quanto o próprio Jesus anunciam a chegada dessa hora. Mais do que um dado cronológico, a hora de Jesus é um indicativo teológico, por sinal, um dos mais significativos na obra de João. Essa hora é o cumprimento de todo o projeto de salvação oferecido por Deus, por meio de seu Filho, consumado na cruz e ressurreição. Finalmente, ele mostra que essa hora chegou: «sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai» (v. 1b). É a hora de Jesus retornar ao Pai, após cumprir plenamente sua missão de humanizar e salvar o mundo, por isso é também a consumação da constante glorificação do Pai que ele realizou, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. O Pai que não se sentia glorificado com o falso culto praticado no templo de Jerusalém, transformado em casa de comércio (Jo 2,16ss), recebe de Jesus o verdadeiro culto: «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim» (v. 1c). O amor de Jesus é ilimitado e, por isso, é “até o fim”.  “Amar até o fim” significa a intensidade do amor, e não o seu término. Quer dizer que Jesus amou de modo extremo, intenso, e continua amando, uma vez que, ressuscitado, vive entre os seus na comunidade. Das falsas aclamações e ritos vazios celebrados no templo, o Pai estava cansado. Jesus recupera a essência do culto e a transmite à comunidade: o amor-serviço. A falta desse amor como motivação para o agir torna vazia qualquer prática cultual e devocional.

Continuando, diz o evangelista que «Estavam tomando a ceia» (v. 2a). A ceia para a mentalidade bíblica não representa apenas o consumo de alimentos e bebidas para matar a fome e a sede, mas significa comunhão e intimidade, sobretudo no contexto pascal. Com efeito, a ceia é o momento primordial da vivência do amor-comunhão; é o ápice da convivência humana sadia, fraterna. Porém, Jesus realiza uma ceia alternativa ao ritual judaico. Nessa ceia de Jesus e da comunidade não há encenação, tudo é feito na maior sinceridade e transparência; o rito é a própria vida, são tratadas as questões existenciais mais profundas da comunidade, por isso, o evangelista menciona o episódio lamentável da entrega de Judas (v. 2b): nada é imposto. A comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como Judas outrora, e tantos outros nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor não diminui diante do risco de rejeição. Mesmo traindo, Judas continuou entre aqueles «amados até o fim»; ele perdeu a comunhão com Jesus quando abandonou o seu projeto e se aliou ao sistema dominante. O evangelista é enfático nesse sentido: «o diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus» (v. 2bc). Ora, Jesus seria capturado, independentemente da entrega da parte de Judas, pois há muito tempo as autoridades religiosas e políticas o almejavam, já tinham feito várias tentativas de capturá-lo e até de apedrejá-lo; daquela Páscoa ele não passaria. O mal de Judas, portanto, foi ter sido aliado, se tornado cúmplice do poder que gera a morte e, ainda mais, por ter se deixado mover por dinheiro. Sempre que o cristianismo permite alianças com grupos e sistemas de poder, sempre que silencia diante das injustiças, está permitindo que o «diabo seja posto em seu coração». O conluio com o poder é sempre um pacto diabólico. A história mostra que Judas não foi um caso isolado no cristianismo, infelizmente.

A oferta do amor gratuito e intenso de Jesus pelos seus é concretamente demonstrada quando ele «levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura» (v. 4). Certamente, foram grandes o espanto e a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus. Tirar o próprio manto em público significava renunciar ao prestígio e à dignidade pessoal, conforme a mentalidade da época; amarrar uma toalha na cintura significava improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço, assumindo explicitamente a condição de servo, de escravo. O que se fazia somente por imposição, Jesus o faz voluntariamente. Com essa descrição, o evangelista deixa cada vez mais clara a oposição de Jesus à liturgia oficial do templo: a indumentária dos sacerdotes do templo eram um impedimento ao serviço, com tantos adornos; ao invés disso, Jesus usa um avental improvisado e uma toalha, mostrando que não pode haver impedimento para o serviço. Esse gesto ensina que na comunidade cristã o serviço deve sempre prevalecer sobre o rito. Em toda a sua vida, Jesus demonstrou que veio ao mundo para servir e, ao servir, ele glorificava o Pai, pois a motivação do seu serviço foi sempre o amor, e o Pai o enviou para espalhar amor sobre o mundo. Mas é nessa cena que o serviço amoroso se torna mais forte e até escandaloso, como será demonstrado pela reação de Pedro, mais adiante.

Tendo já deposto o manto e improvisado um avental, na sequência, o texto diz o que Jesus fez: «Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido» (v. 5). Assim como os leitores de hoje ainda ficam perplexos com a descrição dessa cena, muito mais devem ter ficado os discípulos que estavam com Jesus à mesa. Aqui devemos considerar o ambiente e a situação histórica da época. Ora, lavar os pés antes das refeições – embora o evangelista descreva o gesto acontecendo já durante a refeição – era uma regra básica de higiene no antigo Oriente, sobretudo porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias muito simples, o que deixava os pés sempre sujos, empoeirados. Além do estado permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas como as de hoje, nem os comensais se sentavam em cadeiras, principalmente nos ambientes mais simples. A mesa, geralmente, era apenas um tapete ou uma esteira estendida ao chão e, ao seu redor, as pessoas se sentavam em almofadas ou diretamente no chão, o que deixava os pés muito próximos da comida. Por isso, lavar os pés antes das refeições era, acima de tudo, uma exigência básica de higiene.

Sendo uma necessidade básica, o lava-pés tornou-se um sinal de hospitalidade e acolhida, no antigo oriente. Ao receber uma visita, o dono da casa lhe oferecia, imediatamente, a água para lavar os pés, junto ao copo d’água para beber. Nisso estava o grande sinal de hospitalidade, tão característico do antigo oriente, sobretudo nas culturas semitas. A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria: é o sujeito da ação o que causa perplexidade. No cotidiano, eram os escravos quem lavavam os pés dos membros da família e dos possíveis hóspedes. Em certas ocasiões, a mulher lavava os pés do marido, e o dono da casa chegava a lavar os pés de convidados ilustres, em sinal de respeito e reverência, mas isso era raro. Às vezes, também alguns mestres (rabis) exigiam que seus discípulos lhe lavassem os pés. Mas, no dia a dia, eram os escravos quem cumpriam esse serviço considerado humilhante. Ao fazer voluntariamente, Jesus inverte completamente os valores e as relações: sendo ele Mestre e Senhor (vv. 13-14), fez o que era típico do escravo – ou do discípulo. Com esse gesto, portanto, Jesus diz que fica abolida a hierarquia na comunidade cristã, e a liturgia, enquanto rito, é substituída pelo serviço. Assim, ele ensinou aos seus discípulos, de outrora e de todos os tempos, que eles devem estar sempre dispostos a servir ao próximo em suas necessidades mais simples e básicas do dia a dia, inclusive nas consideradas mais humilhantes, como lavar os pés uns dos outros.

É claro que houve reação dos discípulos diante da atitude tão revolucionária de Jesus. E o primeiro a protestar, como de costume, foi Simão Pedro: «Tu nunca me lavarás os pés» (v. 8). Ora, para quem tinha deixado tudo, imaginando seguir um futuro “Rei de Israel” e um Messias glorioso, deve mesmo ter sido chocante, decepcionante, deparar-se com um que se faz escravo, servo de todos. Por isso, o espanto e o protesto de Pedro. Ora, o que Jesus estava fazendo era inaceitável para quem tinha ambiciosas pretensões de poder. A reação de Pedro revela também as possibilidades de resistência dos oprimidos nos processos de libertação: as relações de igualdade parecem algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e pequenos, súditos e chefes; essa mentalidade acaba naturalizando um mundo desigual, contrário aos desígnios de Deus. Jesus, com suas palavras e gestos, quis exatamente mudar essa realidade e visão de mundo. O mundo desigual, imposto pelo sistema e respaldado pela religião, estava naturalizado na visão de Pedro; a isso, Jesus combate, pois essa mentalidade não cabe na sua comunidade, enquanto embrião de um mundo novo, justo, fraterno, igualitário e solidário.

O outro motivo para a resistência de Pedro foi o medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lavar os pés dos outros, os seus discípulos deverão fazer o mesmo. Por isso, Pedro só aceitou a atitude de Jesus em última instância: se não aceitasse não poderia mais fazer parte da comunidade: «Jesus respondeu: “Se eu não te lavar não terás parte comigo”» (v. 8b). Aceitar um mestre servo e se tornar servo com ele e como ele é condição para fazer parte da comunidade cristã. Sem essa disposição, não há possibilidade de se ter parte com ele! Após a insistência de Jesus, Pedro aceitou, mas não compreendeu: «Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça» (v. 9). O exagero da resposta de Pedro revela a sua total incompreensão. Na verdade, com essa resposta, Pedro quis desviar o foco da proposta revolucionária de Jesus: quis transformar a atitude serviçal de Jesus em um novo rito de purificação, um a mais entre os muitos que os judeus já praticavam e que Jesus tanto combatia. Pedro não aceita a igualdade e não admite ter de servir ao próximo com a mesma intensidade com que Jesus servia. Ora, transformando a atitude do lava-pés em um novo rito de purificação, Pedro estaria se isentando do compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica, contrariando o ensinamento de Jesus. Para fazer parte da comunidade de Jesus, ou seja, para ter parte com ele, é necessário aceitar a sua proposta de vida com toda a revolução de valores e as consequências que essa implica.

Mesmo com resistência nos discípulos, Jesus concluiu o seu ensinamento em forma de gesto: «Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus sentou-se de novo» (v. 12). Sentar-se à mesa era um direito exclusivo das pessoas livres. Logo, para a mentalidade da época, sentar-se à mesa e, ao mesmo tempo, servir constituíam papéis incompatíveis: quem servia não tinha direito de sentar-se à mesa, e quem sentava não deveria humilhar-se servindo. Jesus aboliu essas diferenças. Sentar-se de novo após o serviço é a consolidação de uma verdadeira revolução de valores, uma inversão de ordem: no banquete da vida, vivido e celebrado pela comunidade cristã, há espaço para todos, principalmente para os que servem. Não pode haver divisão de classes na comunidade, porque todos são iguais: o que se senta à mesa serve, e o que serve senta-se à mesa. O que era papel do escravo – lavar os pés – , é agora dever também da pessoa livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As divisões hierárquicas não têm espaço na comunidade cristã, porque nessa prevalece o movimento de sentar-levantar-sentar para que as necessidades do ser humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, até as mais exigentes, como dar a própria vida por amor. E Jesus realizou as duas coisas como prova que ele não media esforços para cumprir a sua missão e atender às necessidades das pessoas. Com o lava-pés, portanto, Jesus fez uma recapitulação de toda a sua existência neste mundo. Ele veio para servir e, por isso, viveu intensamente servindo.

Para os discípulos, não era fácil abraçar uma nova mentalidade, ainda mais tão revolucionária quanto a de Jesus. Com essa inversão de papéis, Jesus fazia desmoronar nos discípulos todos os planos de grandeza e projetos de poder que eles tinham cultivado até então. Ora, eles não sonhavam com uma mudança de sistema, um novo modo de organização para a sociedade e a religião. Queriam que as estruturas de poder continuassem as mesmas, mudando apenas as lideranças: ao invés dos romanos e dos sacerdotes do templo, que fossem eles, os discípulos do Messias, a controlar a vida do povo, mas com os mesmos mecanismos de dominação: exército, cobrança de impostos, divisões de classe e uso da violência quando a “ordem” estivesse ameaçada. Até os últimos momentos de convivência essa mentalidade prevaleceu entre os discípulos. Por isso, Jesus dedicou tanto tempo na última ceia para catequizá-los e promover neles a consciência de uma nova ordem, partindo do seu próprio exemplo: «portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz» (vv. 14-15). Temos aqui a instituição do serviço como mandamento para a comunidade de Jesus.

A ordem para que os discípulos «façam a mesma coisa» em relação ao serviço, aqui no Quarto Evangelho, equivale ao «fazei isto em memória de mim» da tradição paulina/sinótica sobre a Eucaristia (Lc 22,19; 1Cor 11,24-25). «Fazer a mesma coisa» que fez Jesus, obviamente, não significa repetir o gesto de lavar os pés uns dos outros, o que já não é uma exigência sanitária dos dias atuais; significa a disponibilidade total para o serviço incondicional, motivado pelo amor, na comunidade cristã. A simples repetição do gesto seria transformá-lo em um rito a mais. O lava-pés que a comunidade deve fazer permanentemente é a vivência do amor fraterno que traz, como consequência, a disponibilidade para o serviço gratuito e sem distinção. Para isso, é necessário assimilar o estilo de vida de Jesus, com disposição para «amar até o fim», como ele fez. Sem isso, qualquer coisa que se faça em sua memória não passa de encenação.

Jesus em sua liberdade fez o papel do escravo para mostrar que na sua comunidade não pode haver distinção de classe: não há mais espaço para a escravidão, pois todos e todas são livres. O medo de Pedro consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como hoje muitos ainda resistem, preferindo fechar-se a uma mentalidade mais alinhada à religião do templo, duramente combatido por Jesus, e distante dos valores do Evangelho. Jesus celebrou, assim, a Páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço, criou uma comunidade alternativa igualitária, na qual tudo deve ser orientado a partir do amor-serviço. Dessa comunidade não pode fazer parte quem prefere alinhar-se aos poderes que impedem um mundo e uma sociedade compatíveis ao modelo igualitário e fraterno proposto por Jesus.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

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