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REFLEXÃO PARA O XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 14,25-33 (ANO C)


Neste XXIII Domingo do Tempo Comum, o Evangelho apresenta Jesus retomando o caminho, após uma breve pausa em certo povoado, onde fez até uma refeição na casa de um fariseu, após o culto sabático da sinagoga. Foi isso o que nos apresentou o texto evangélico do domingo passado, enfatizando o tom polêmico e controverso que sempre marcou os encontros de Jesus com os grupos mais observantes da religião judaica.

Hoje, nós o contemplamos novamente caminhando rumo a Jerusalém. Como já conhecemos a natureza desse caminho, podemos dizer que Ele continua ‘ensinando’, já que o objetivo desse itinerário é catequético-teológico, muito mais que geográfico. À medida que avança no percurso, aprofunda o conteúdo da sua catequese e, consequentemente, as exigências para o seu seguimento vão tornando-se mais claras. Pois, quanto mais se aproximam do destino, mais necessárias se tornam as convicções para tal seguimento. Por isso, Ele apresenta três exigências muito fortes, que exigem uma tomada de decisão bastante radical.

O texto diz, logo no início, que “Grandes multidões acompanhavam Jesus” (v. 25a). Com essa afirmação podemos concluir que a pregação de Jesus estava fazendo sucesso, impressionando as pessoas por onde Ele passava. E, como a busca pelo sucesso não era seu objetivo, Ele até estranha a presença de multidões atrás de si. Por isso, Ele “voltou-se” (v. 25b) e fez uma chamada de atenção, pois, consciente da radicalidade de suas próprias exigências, Ele percebia que havia, ali, um mal-entendido.

No início do caminho, Jesus tinha tratado seu grupo como “pequeno rebanho” (cf. Lc 12,32). Quanto mais caminhava, mais exigia coragem e convicção. Seria, então, mais lógico que diminuísse o número dos que o acompanhavam, ao invés de aumentar. Se aumentavam as multidões, era porque havia equívoco no modo de acolher a sua mensagem. Jesus sabia que o interesse de muitos era o triunfalismo. Muitos o acompanhavam imaginando que Ele fosse o messias davídico, o restaurador do poder político, aquele que combateria com os romanos até retomar o poder e restaurar o reino de Israel. Foi a essa mentalidade que Ele percebeu e quis combater, ao esclarecer as exigências necessárias para o seu discipulado, no Evangelho de hoje.

Como bom mestre, Jesus costumava começar seus discursos com expressões muito fortes e impactantes. Recordemos o Evangelho de três domingos atrás, o qual, logo na sua primeira expressão, Jesus dizia: “Eu vim trazer o fogo sobre a terra” (cf. Lc 12,49). É uma técnica retórica comum nos ambientes semitas e gregos, muito usada pelos rabinos, com a finalidade de despertar a atenção logo no início, causando impacto. Assim, Ele o faz ao expor a primeira exigência para o seu seguimento: o rompimento com os laços familiares (v. 26). Infelizmente, a tradução do texto litúrgico não consegue expressar bem o sentido da afirmação de Jesus. No texto original não aparece o verbo ‘desapegar’; aparece um muito mais forte: odiar, em grego misei/ - misei. Portanto, a tradução mais justa seria: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai e sua mãe, a mulher e os filhos, os irmãos e até sua própria vida, não pode ser meu discípulo”; e essa é muito mais impactante.

Certamente, aqueles que o escutaram ficaram perplexos. A princípio, parece um convite a abandonar o quarto mandamento da Torá, “honrar pai e mãe” (cf. Ex 20,12). Claro que não se trata disso. Jamais Jesus pregaria a disseminação do ódio entre as pessoas, até porque seria contradizer a sua própria natureza. O que Ele pede é uma adesão incondicional, que nada nem ninguém ocupe um lugar acima do seu, na vida de seus discípulos. Ele pede coragem para romper com os laços mais íntimos, representados pela família. Além disso, a família enquanto instituição representava a tradição, e o seu anúncio do Reino exigia uma ruptura com as antigas tradições. Há também nessa afirmação, sinais de continuidade com as observações dirigidas aos fariseus durante a refeição (cf. Lc 14,1-14), conforme refletimos no domingo passado: os critérios para convidar alguém para uma refeição em casa não pode ser o laço familiar. Enfim, na proposta de vida nova apresentada por Jesus, as relações familiares não são mais centrais.

Jesus não está abolindo o quarto mandamento. Está apenas inaugurando novos critérios de relação. Indo mais além, exige que o Reino esteja acima da própria vida do discípulo. Enfim, a opção pelo seu seguimento requer tomadas de decisões firmes e corajosas, as quais não podem ser feitas de improviso. É necessário refletir e discernir se vale a pena mesmo seguí-lo. O convite à reflexão, Ele faz após expor a segunda exigência, com as duas pequenas parábolas (vv. 28-32).

A segunda exigência é ainda mais impactante, se conseguirmos captar bem o sentido da cruz aqui empregado: “Quem não carrega a sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo” (v. 27). No tempo de Jesus a cruz não era um sinal sagrado. Pelo contrário, era sinal de maldição, de desgraça. Mais que de tortura, era sinal de crime, de subversão, já que era a pena aplicada aos agitadores sociais, àqueles que, como Jesus, ousavam questionar a ‘pax romana’ (cf. Lc 12,51). Muitos, erroneamente, tem interpretado essa afirmação como um convite de Jesus a suportar, com paciência e passividade, os sofrimentos e obstáculos, dores e perdas do dia-a-dia. Não se trata disso! Jesus não está pedindo conformismo. É exatamente o contrário disso! Com essa expressão, Ele está se opondo radicalmente à doutrina dos rabinos de sua época, os quais exigiam dos seus discípulos o cumprimento e à obediência às leis. Jesus pede a subversão! Se a cruz era uma modalidade de pena, e Jesus pede que seus discípulos a carreguem a cada dia, com isso Ele pedia que eles fossem desobedientes e subversivos, questionadores da ordem estabelecida, inconformados com as injustiças presentes no mundo. Ele, não apenas pede, mas exige, que seus discípulos tenham a coragem que Ele teve.

Certamente, Ele percebeu que estava sendo muito exigente. Por isso, antes de apresentar a terceira exigência, Ele conta duas pequenas parábolas, com a intenção de ‘suavizar’ um pouco e, ao mesmo tempo, fazê-los pensar sobre o que estavam fazendo. Assim, está claro que o objetivo das parábolas, da torre (vv. 28-30) e da guerra (vv. 31-32) é chamar os que o acompanham à reflexão: estando convictos de que o seu caminho não é um caminho de sucessos, não há nenhuma garantia ou segurança material, querem ainda continuar acompanhando-o? É um caminho marcado por desafios e renúncias, com muitas exigências. É como se Jesus perguntasse: “vocês já pararam para pensar sobre isso? Estão prontos para morrer como bandidos? É isso mesmo que vocês querem?”. É isso que está por trás da imagem do cálculo a ser feito pelo construtor (v. 28) e pelo rei (v. 31). Para evitar futuras decepções, é aconselhável que reflita-se antes, para que a decisão tomada seja séria, como é sério o projeto do Reino de Deus.

Por fim, Ele apresenta a terceira exigência: “Quem não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!” (v. 33b). Ora, Jesus quer pessoas completamente livres no seu seguimento. O apego aos bens era um dos grandes obstáculos. Em outras palavras, não colocar a segurança nas coisas que se possui e sim pôr a própria segurança no que se doa, a própria vida. Tudo isso porque Jesus quer ao seu seguimento somente pessoas livres. De fato, as três condições para o seguimento são todas escolhas de liberdade e para a liberdade. Ele pede decisões que não podem ser tomadas no improviso. É, sem dúvidas o máximo de radicalidade. O apego aos bens materiais parecia tão forte, a ponto de prevalecer até mesmo sobre o apego aos familiares. É isso que explica o fato de ser a última exigência apresentada, e ter sido preparada pelas parábolas. 

Chama-nos a atenção, a fórmula de conclusão de cada exigência apresentada: “não pode ser meu discípulo!” (vv. 26. 27. 33). Nossa reflexão pessoal deve partir exatamente dessa pergunta: podemos ser discípulos de Jesus do jeito que somos e estamos? A positividade ou negatividade da resposta depende das renúncias e opções que fazemos!

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues