sábado, agosto 30, 2025

REFLEXÃO PARA O 22º DOMINGO DO TEMPO COMUM – LUCAS 14,1.7-14 (ANO C)



Dando sequência à leitura semicontínua do Evangelho de Lucas, como é próprio do ciclo litúrgico C, a liturgia deste vigésimo segundo domingo do tempo comum continua nos situando no contexto do longo caminho de Jesus, acompanhado de seus discípulos e discípulas, em direção à cidade de Jerusalém, onde consumará a sua missão com a paixão, morte e ressurreição. Como temos insistido ao longo dos domingos, esse caminho é, mais do que um percurso físico-geográfico, um itinerário catequético e um programa formativo, além de ser também uma metáfora da própria vida e uma imagem da comunidade cristã, ou seja, da Igreja, denominada explicitamente de “Caminho”, no livro dos Atos dos Apóstolos, o segundo volume da obra lucana. Trata-se, portanto, de uma criação do evangelista Lucas, que selecionou os mais importantes ensinamentos de Jesus e distribuiu-os nesta longa seção narrativa, composta de dez capítulos (Lc 9–19). Por isso, não consiste apenas no ato de caminhar, mas no ensinamento dos valores do Reino de Deus, sendo que Jesus é o próprio Reino em pessoa, de modo que tais valores se manifestam na sua maneira de agir diante das mais diversas situações.

Enquanto caminhava, Jesus se servia das mais diversas situações do cotidiano para instruir o povo e formar os seus discípulos e discípulas. A passagem selecionada para a liturgia de hoje – Lc 14,1.7-14 – apresenta Jesus numa refeição festiva do dia de sábado, na casa de um fariseu. A refeição, para todas as culturas antigas, possuía um valor sagrado; na cultura judaica era, acima de tudo, um momento de memória e de rendimento de graças a Deus por suas obras em favor de Israel, ao longo da história, principalmente a libertação da escravidão do Egito. No mundo greco-romano, que o evangelista Lucas conhecia muito bem, a refeição era também ocasião de ensino e aprendizado, através dos diálogos travados entre os comensais, de modo que o banquete se tornou um elemento importante para a filosofia grega, considerado, inclusive, um gênero literário próprio. No evangelho de hoje, Lucas procura conciliar e sintetizar as duas perspectivas. Por sinal, é exatamente Lucas o evangelista que mais apresenta Jesus sendo convidado e aceitando convites para participar de refeições, utilizando, assim, a comensalidade como ocasião de ensinamento (Lc 5,29-39; 7,36-50; 11,37-54; 19,5-6), além das refeições pascais de antes e depois da ressurreição (Lc 22,14-23; 24,41-43). Por isso, Lucas é conhecido também como o evangelista da comensalidade. Ao prezar tanto por mostrar Jesus entrando nas casas das pessoas para comer, ele reforça a imagem de um messias mais próximo das pessoas, sendo a visita definitiva de Deus à humanidade, espalhando misericórdia por onde passa. Das refeições de Jesus que Lucas descreve, três foram em casa de fariseus (Lc 7,36ss; 11,37ss; 14,1ss), sendo a de hoje a última. Por sinal, sempre havia conflito quando Jesus comia na casa de um fariseu. O trecho selecionado salta alguns versículos (vv. 2-6), os quais contêm uma cena também polêmica, na qual Jesus questiona o real valor do sábado, ao curar um enfermo hidrópico, mas esse salto não compromete a compreensão do texto, pois o foco da liturgia é o comportamento no banquete, tanto dos convidados quanto do anfitrião, como veremos.

Feitas as devidas observações a nível de contexto, voltemos a atenção para o texto, começando pelo primeiro versículo: «Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam» (v. 1). Nos dias de sábado, após o culto matinal da sinagoga, as famílias almoçavam festivamente; a comida tinha sido preparada na véspera, a sexta-feira, o “dia da preparação”, como eles chamavam, uma vez que nenhum trabalho poderia ser feito no sábado, dia de culto e repouso. Nos povoados, os judeus mais influentes costumavam oferecer verdadeiros banquetes, convidando com frequência o pregador daquele dia na sinagoga, de modo que o almoço se transformava numa extensão do culto. Assim, à mesa, se discutia o assunto da pregação, aproveitando o espaço para se tirar as dúvidas, fazer esclarecimentos e até propor novas possibilidades de interpretação. Tudo isso faz supor que, naquele sábado, Jesus pregou na sinagoga do lugar por onde passava e, após o culto, recebeu o convite para uma refeição na casa de um fariseu ilustre, alguém importante do lugar. De fato, o evangelista não se refere ao anfitrião de Jesus apenas como um fariseu, mas como um “chefe” (em grego: ἄρχων) deles. Como a fama de Jesus já tinha se espalhado bastante, os primeiros interessados em conferir o teor de sua mensagem eram os fariseus, como guardiães da reta doutrina na época. Além de Jesus, o anfitrião de Jesus tinha outros convidados à mesa, certamente, outros fariseus, seus colegas de doutrina. E eles “observavam” Jesus. Com esse detalhe, que não é novidade para o leitor, o evangelista denuncia qual era a intenção deles com o convite: observar cuidadosamente os gestos e as palavras de Jesus, para o acusarem de blasfemo e transgressor da Lei de Deus, uma vez que a interpretação de Jesus geralmente trazia elementos novos que eles não aceitavam, pois ele colocava o bem e o serviço à vida acima de qualquer doutrina e norma.

Porém, pela continuidade do texto, podemos dizer que havia uma dupla malícia em ocasiões como essa: os fariseus convidavam Jesus para observá-lo e depois acusá-lo, e Jesus aceitava tais convites para desmascará-los, muito mais do que para desfrutar da fartura do banquete, como evidencia o próprio texto: «Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então, contou-lhes uma parábola» (v. 7). Como se vê, também Jesus observava os que estavam à mesa com ele. E, com base em suas observações, ele faz sérias advertências, tanto aos convidados, quanto ao anfitrião, especificamente sobre a humildade (vv. 8-11) e a generosidade-gratuidade (vv. 12-14). Destas advertências a pessoas específicas, que na cena descrita eram os fariseus, surge um ensinamento universal, direcionado inicialmente aos discípulos de primeira hora, mas estendido aos cristãos de todos os tempos: o cultivo da humildade e da gratuidade nas relações, ou seja, um estilo de vida baseado em novos critérios, em discordância com os valores defendidos pelas tradições ultrapassadas e excludentes da sociedade e da religião da época.

Ao advertir os convidados (vv. 8-11), Jesus recorre à tradição sapiencial e constrói uma pequena parábola, baseada em uma citação do livro dos Provérbios: «Não te vanglories na frente do rei, nem ocupes o lugar dos grandes; pois é melhor que te digam: “Sobe aqui!” do que seres humilhado na frente de um nobre» (Pr 25,6-7). Ora, tendo notado que os convidados escolhiam os primeiros lugares, demonstrando um notório espírito de competição, foi muito oportuna a chamada de atenção. A princípio, a recomendação de Jesus parece um convite à esperteza: como lograr sucesso na frente dos demais e ser promovido, passando do último para o primeiro lugar (v. 10). Era essa a mentalidade do autor sapiencial. Mas, Jesus usou o texto de Provérbios apenas como ilustração. O que, de fato, ele quer apresentar é a dinâmica do Reino de Deus e, ao mesmo tempo, prevenir seus discípulos para não imitarem o comportamento dos fariseus que ele tanto combatia. Por isso mesmo, ele continuará essa observação em outras ocasiões: na parábola do fariseu e o publicano (Lc 18,9-14) e, já em Jerusalém, no discurso contra os escribas (Lc 20,45-47).

Portanto, a intenção principal, tanto de Jesus quanto do evangelista, é a formação dos discípulos. Ora, a busca pelos primeiros lugares, característica do grupo dos fariseus, não pode fazer parte do discipulado de Jesus. A atitude do cristão deve ser sempre a do serviço, e quem serve não pensa nos lugares de honra, mas nas necessidades do próximo. Certamente, esse texto reflete também a preocupação de Lucas com a tendência hierarquizante nas suas comunidades, que passavam por um processo de institucionalização. O banquete dos fariseus é, aqui, apresentado como o antimodelo em relação ao banquete cristão, o qual deve prefigurar o banquete do Reino. Assim, renunciar aos lugares de destaque é, mais do que humildade, um gesto de amor. É dar espaço para o outro, optando por um modelo de sociedade alternativa, renunciando a qualquer indício de concorrência e egoísmo. É uma atitude inclusiva, como será desenvolvido na sequência do texto. Escolher o “último lugar” (em grego: ἔσχατος τόπος – eskátos tópos) significa estar completamente alinhado às opções de Deus, claramente reveladas na vida de Jesus, desde o nascimento na manjedoura até a morte na cruz. De fato, manjedoura e cruz sintetizam uma vida toda voltada para os últimos. Entre esses dois lugares, Jesus viveu entre os últimos e buscou-os, tomando-os como suas companhias prediletas. Por conseguinte, a escolha pelos últimos lugares recomendada por Jesus indica a opção pelos últimos enquanto pessoas marginalizadas, excluídas. Trata-se, acima de tudo, de assimilar a lógica do Reino que subverte toda a lógica da meritocracia, amparada pela sociedade e a religião da época de Jesus. A inversão de valores que Jesus propõe é caminho de humanização.

A segunda advertência de Jesus é dirigida ao anfitrião, e completa a primeira, afinal, convidados e anfitrião refletiam e representavam os mesmos modelos de sociedade e religião da época, ambas antagônicas ao Reino de Deus que ele veio apresentar. Eis o que diz o texto: «E (Jesus) disse também a quem o tinha convidado: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos”» (vv. 12-13). Ora, tendo antes observado como «os convidados escolhiam os primeiros lugares» (v. 7a), ele percebeu também as características destes convidados, e os critérios empregados pelo dono da casa para convidá-los. Estava muito clara a lógica da retribuição naquele ambiente. Aqui, ele retoma o discurso das bem-aventuranças: «fazei o bem e emprestai sem esperar nada em troca» (Lc 6,35). Por sinal, todo esse episódio está alinhado à lógica das bem-aventuranças e do Magnificat, que constituem completa subversão à lógica vigente. Esse conselho dado ao dono da casa é completamente contrário aos costumes da época. Trata-se de algo revolucionário. O convite à generosidade e à gratuidade nas relações é, aqui, apenas um dos ricos significados desse trecho. Fazer o bem sem esperar recompensa é, de fato, uma atitude necessária para a comunidade dos discípulos e uma exigência para a construção do Reino, como alternativa ao modelo de sociedade daquela época e de hoje. Aquilo que Jesus recomenda ao anfitrião não é apenas um conselho, mas representa um modelo novo de sociedade, um ideal de mundo. Há um forte apelo a uma verdadeira revolução social, ao conceber as novas relações, e um convite para uma luta da qual nenhum cristão pode fugir: a superação de todas as formas de exclusão, marginalização e desigualdade.

Jesus observou, naquele ambiente, quatro categorias de convidados: «amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos» (v. 12); todas estas categorias tinham capacidade de retribuir o convite, e parece que já o faziam com bastante frequência. Para superar essa situação, que refletia uma mentalidade e teologia retributivas, Jesus propõe outros critérios, sendo o primeiro deles a impossibilidade de retribuição. Por isso, sugere também quatro categorias como convidados ideais: «os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos» (v. 13). É aqui onde se encontra a máxima da novidade de Jesus neste episódio. Ora, é inegável que a religião dos judeus pregava uma atenção especial aos pobres, juntamente com os órfãos e as viúvas, sobretudo nos livros proféticos; mas a prioridade aos «aleijados, coxos e cegos» é uma grande novidade, sendo exclusividade de Jesus; essa atenção é fruto do seu amor infinito pelos últimos. Inclusive, de acordo com a Lei, quem fosse portador de qualquer deficiência física, incluindo cegos, coxos e aleijados, não podia sequer entrar no templo (Lv 21,18-20); logo, eram pessoas extremamente excluídas. E, de repente, Jesus diz que estas categorias devem ser as convidadas principais do banquete, contrariando a mentalidade da sociedade e da religião da época.

Para aquele fariseu e seus convidados, o que Jesus disse foi apenas uma sugestão. Para os cristãos, isso é compromisso e exigência: não há vida cristã sem luta pela inclusão e pela superação de todas as formas de discriminação e preconceitos. Ora, naquele banquete, Jesus viu uma miniatura da sociedade e da religião do seu tempo, marcadas pela competição e a lógica da retribuição. Por isso, ele investiu tanto nas críticas, apresentando também a proposta ideal de superação, ao combater a competição com a humildade e a retribuição com a gratuidade e a inclusão dos marginalizados. É interessante observar a fórmula “quatro por quatro”: tirar os privilégios de quatro grupos específicos, e incluir quatro grupos que representam todas as categorias de pessoas excluídas e marginalizadas, inclusive da vida religiosa, uma vez que os aleijados, os coxos e os cegos nem entrar no templo podiam. Assim, o projeto do Reino, anunciado no Evangelho de Lucas, logo no cântico de Maria, prevendo a ascensão dos humildes e a queda dos poderosos (Lc 1,52), vai ficando cada vez mais claro.

Não podemos deixar de perceber aqui uma antecipação da Eucaristia e seu sentido mais profundo: banquete para todos, motivado por amor-doação, sem exclusão alguma. Na conclusão, Jesus proclama uma bem-aventurança destinada a quem aceitar o seu projeto de inversão de ordem nas estruturas e nos costumes exclusivistas, conservados pela religião e a sociedade da época: «Então, tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos» (v. 14). É feliz quem assimila a lógica do Reino. A única recompensa para quem acolhe os mais necessitados, e excluídos em geral, é a certeza do amor de Deus em demasia. A expressão “ressurreição dos justos”, aqui, não é uma definição doutrinal, mas significa uma relação tão íntima com Deus que nem a morte consegue interromper. E, aquilo que garante essa relação é o amor e a solicitude para com os mais necessitados. Por isso, é necessário repensar, questionar e até reconfigurar, se for necessário, o banquete cristão, que é a Eucaristia. Se não ajuda a superar as exclusões e desigualdades do mundo, está longe de ser a ceia do Senhor.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

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