Dando sequência à leitura
semicontínua do Evangelho de Lucas, como é próprio do ciclo litúrgico C, a
liturgia deste vigésimo segundo domingo do tempo comum continua nos situando no
contexto do longo caminho de Jesus, acompanhado de seus discípulos e discípulas,
em direção à cidade de Jerusalém, onde consumará a sua missão com a paixão,
morte e ressurreição. Como temos insistido ao longo dos domingos, esse caminho
é, mais do que um percurso físico-geográfico, um itinerário catequético e um
programa formativo, além de ser também uma metáfora da própria vida e uma
imagem da comunidade cristã, ou seja, da Igreja, denominada explicitamente de
“Caminho”, no livro dos Atos dos Apóstolos, o segundo volume da obra lucana. Trata-se,
portanto, de uma criação do evangelista Lucas, que selecionou os mais
importantes ensinamentos de Jesus e distribuiu-os nesta longa seção narrativa,
composta de dez capítulos (Lc 9–19). Por isso, não consiste apenas no ato de
caminhar, mas no ensinamento dos valores do Reino de Deus, sendo que Jesus é o
próprio Reino em pessoa, de modo que tais valores se manifestam na sua maneira
de agir diante das mais diversas situações.
Enquanto caminhava, Jesus se servia das mais diversas situações do cotidiano para instruir o povo e formar os seus discípulos e discípulas. A passagem selecionada para a liturgia de hoje – Lc 14,1.7-14 – apresenta Jesus numa refeição festiva do dia de sábado, na casa de um fariseu. A refeição, para todas as culturas antigas, possuía um valor sagrado; na cultura judaica era, acima de tudo, um momento de memória e de rendimento de graças a Deus por suas obras em favor de Israel, ao longo da história, principalmente a libertação da escravidão do Egito. No mundo greco-romano, que o evangelista Lucas conhecia muito bem, a refeição era também ocasião de ensino e aprendizado, através dos diálogos travados entre os comensais, de modo que o banquete se tornou um elemento importante para a filosofia grega, considerado, inclusive, um gênero literário próprio. No evangelho de hoje, Lucas procura conciliar e sintetizar as duas perspectivas. Por sinal, é exatamente Lucas o evangelista que mais apresenta Jesus sendo convidado e aceitando convites para participar de refeições, utilizando, assim, a comensalidade como ocasião de ensinamento (Lc 5,29-39; 7,36-50; 11,37-54; 19,5-6), além das refeições pascais de antes e depois da ressurreição (Lc 22,14-23; 24,41-43). Por isso, Lucas é conhecido também como o evangelista da comensalidade. Ao prezar tanto por mostrar Jesus entrando nas casas das pessoas para comer, ele reforça a imagem de um messias mais próximo das pessoas, sendo a visita definitiva de Deus à humanidade, espalhando misericórdia por onde passa. Das refeições de Jesus que Lucas descreve, três foram em casa de fariseus (Lc 7,36ss; 11,37ss; 14,1ss), sendo a de hoje a última. Por sinal, sempre havia conflito quando Jesus comia na casa de um fariseu. O trecho selecionado salta alguns versículos (vv. 2-6), os quais contêm uma cena também polêmica, na qual Jesus questiona o real valor do sábado, ao curar um enfermo hidrópico, mas esse salto não compromete a compreensão do texto, pois o foco da liturgia é o comportamento no banquete, tanto dos convidados quanto do anfitrião, como veremos.
Feitas as devidas observações a
nível de contexto, voltemos a atenção para o texto, começando pelo primeiro
versículo: «Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um
dos chefes dos fariseus. E eles o observavam» (v. 1). Nos dias de sábado,
após o culto matinal da sinagoga, as famílias almoçavam festivamente; a comida
tinha sido preparada na véspera, a sexta-feira, o “dia da preparação”, como
eles chamavam, uma vez que nenhum trabalho poderia ser feito no sábado, dia de
culto e repouso. Nos povoados, os judeus mais influentes costumavam oferecer
verdadeiros banquetes, convidando com frequência o pregador daquele dia na
sinagoga, de modo que o almoço se transformava numa extensão do culto. Assim, à
mesa, se discutia o assunto da pregação, aproveitando o espaço para se tirar as
dúvidas, fazer esclarecimentos e até propor novas possibilidades de
interpretação. Tudo isso faz supor que, naquele sábado, Jesus pregou na
sinagoga do lugar por onde passava e, após o culto, recebeu o convite para uma
refeição na casa de um fariseu ilustre, alguém importante do lugar. De fato, o
evangelista não se refere ao anfitrião de Jesus apenas como um fariseu, mas
como um “chefe” (em grego: ἄρχων) deles. Como a fama de Jesus já tinha se
espalhado bastante, os primeiros interessados em conferir o teor de sua
mensagem eram os fariseus, como guardiães da reta doutrina na época. Além de
Jesus, o anfitrião de Jesus tinha outros convidados à mesa, certamente, outros
fariseus, seus colegas de doutrina. E eles “observavam” Jesus. Com esse
detalhe, que não é novidade para o leitor, o evangelista denuncia qual era a
intenção deles com o convite: observar cuidadosamente os gestos e as palavras
de Jesus, para o acusarem de blasfemo e transgressor da Lei de Deus, uma vez
que a interpretação de Jesus geralmente trazia elementos novos que eles não
aceitavam, pois ele colocava o bem e o serviço à vida acima de qualquer
doutrina e norma.
Porém, pela continuidade do texto,
podemos dizer que havia uma dupla malícia em ocasiões como essa: os fariseus
convidavam Jesus para observá-lo e depois acusá-lo, e Jesus aceitava tais
convites para desmascará-los, muito mais do que para desfrutar da fartura do
banquete, como evidencia o próprio texto: «Jesus notou como os convidados
escolhiam os primeiros lugares. Então, contou-lhes uma parábola» (v. 7).
Como se vê, também Jesus observava os que estavam à mesa com ele. E, com base
em suas observações, ele faz sérias advertências, tanto aos convidados, quanto
ao anfitrião, especificamente sobre a humildade (vv. 8-11) e a
generosidade-gratuidade (vv. 12-14). Destas advertências a pessoas específicas,
que na cena descrita eram os fariseus, surge um ensinamento universal,
direcionado inicialmente aos discípulos de primeira hora, mas estendido aos
cristãos de todos os tempos: o cultivo da humildade e da gratuidade nas
relações, ou seja, um estilo de vida baseado em novos critérios, em
discordância com os valores defendidos pelas tradições ultrapassadas e
excludentes da sociedade e da religião da época.
Ao advertir os convidados (vv.
8-11), Jesus recorre à tradição sapiencial e constrói uma pequena parábola,
baseada em uma citação do livro dos Provérbios: «Não te vanglories na frente
do rei, nem ocupes o lugar dos grandes; pois é melhor que te digam: “Sobe
aqui!” do que seres humilhado na frente de um nobre» (Pr 25,6-7). Ora,
tendo notado que os convidados escolhiam os primeiros lugares, demonstrando um
notório espírito de competição, foi muito oportuna a chamada de atenção. A
princípio, a recomendação de Jesus parece um convite à esperteza: como lograr
sucesso na frente dos demais e ser promovido, passando do último para o
primeiro lugar (v. 10). Era essa a mentalidade do autor sapiencial. Mas, Jesus
usou o texto de Provérbios apenas como ilustração. O que, de fato, ele quer
apresentar é a dinâmica do Reino de Deus e, ao mesmo tempo, prevenir seus
discípulos para não imitarem o comportamento dos fariseus que ele tanto
combatia. Por isso mesmo, ele continuará essa observação em outras ocasiões: na
parábola do fariseu e o publicano (Lc 18,9-14) e, já em Jerusalém, no discurso
contra os escribas (Lc 20,45-47).
Portanto, a intenção principal,
tanto de Jesus quanto do evangelista, é a formação dos discípulos. Ora, a busca
pelos primeiros lugares, característica do grupo dos fariseus, não pode fazer
parte do discipulado de Jesus. A atitude do cristão deve ser sempre a do
serviço, e quem serve não pensa nos lugares de honra, mas nas necessidades do
próximo. Certamente, esse texto reflete também a preocupação de Lucas com a
tendência hierarquizante nas suas comunidades, que passavam por um processo de
institucionalização. O banquete dos fariseus é, aqui, apresentado como o
antimodelo em relação ao banquete cristão, o qual deve prefigurar o banquete do
Reino. Assim, renunciar aos lugares de destaque é, mais do que humildade, um
gesto de amor. É dar espaço para o outro, optando por um modelo de sociedade
alternativa, renunciando a qualquer indício de concorrência e egoísmo. É uma
atitude inclusiva, como será desenvolvido na sequência do texto. Escolher o
“último lugar” (em grego: ἔσχατος τόπος – eskátos tópos) significa estar
completamente alinhado às opções de Deus, claramente reveladas na vida de
Jesus, desde o nascimento na manjedoura até a morte na cruz. De fato,
manjedoura e cruz sintetizam uma vida toda voltada para os últimos. Entre esses
dois lugares, Jesus viveu entre os últimos e buscou-os, tomando-os como suas
companhias prediletas. Por conseguinte, a escolha pelos últimos lugares
recomendada por Jesus indica a opção pelos últimos enquanto pessoas
marginalizadas, excluídas. Trata-se, acima de tudo, de assimilar a lógica do
Reino que subverte toda a lógica da meritocracia, amparada pela sociedade e a
religião da época de Jesus. A inversão de valores que Jesus propõe é caminho de
humanização.
A segunda advertência de Jesus é
dirigida ao anfitrião, e completa a primeira, afinal, convidados e anfitrião
refletiam e representavam os mesmos modelos de sociedade e religião da época,
ambas antagônicas ao Reino de Deus que ele veio apresentar. Eis o que diz o
texto: «E (Jesus) disse também a quem o tinha convidado: “Quando tu deres um
almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus
parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e
isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida
os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos”» (vv. 12-13). Ora, tendo antes
observado como «os convidados escolhiam os primeiros lugares» (v. 7a), ele
percebeu também as características destes convidados, e os critérios empregados
pelo dono da casa para convidá-los. Estava muito clara a lógica da retribuição
naquele ambiente. Aqui, ele retoma o discurso das bem-aventuranças: «fazei o
bem e emprestai sem esperar nada em troca» (Lc 6,35). Por sinal, todo esse
episódio está alinhado à lógica das bem-aventuranças e do Magnificat, que
constituem completa subversão à lógica vigente. Esse conselho dado ao dono da
casa é completamente contrário aos costumes da época. Trata-se de algo
revolucionário. O convite à generosidade e à gratuidade nas relações é, aqui,
apenas um dos ricos significados desse trecho. Fazer o bem sem esperar recompensa
é, de fato, uma atitude necessária para a comunidade dos discípulos e uma
exigência para a construção do Reino, como alternativa ao modelo de sociedade
daquela época e de hoje. Aquilo que Jesus recomenda ao anfitrião não é apenas
um conselho, mas representa um modelo novo de sociedade, um ideal de mundo. Há
um forte apelo a uma verdadeira revolução social, ao conceber as novas
relações, e um convite para uma luta da qual nenhum cristão pode fugir: a
superação de todas as formas de exclusão, marginalização e desigualdade.
Jesus observou, naquele ambiente,
quatro categorias de convidados: «amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos»
(v. 12); todas estas categorias tinham capacidade de retribuir o convite, e
parece que já o faziam com bastante frequência. Para superar essa situação, que
refletia uma mentalidade e teologia retributivas, Jesus propõe outros
critérios, sendo o primeiro deles a impossibilidade de retribuição. Por isso,
sugere também quatro categorias como convidados ideais: «os pobres, os
aleijados, os coxos e os cegos» (v. 13). É aqui onde se encontra a máxima da
novidade de Jesus neste episódio. Ora, é inegável que a religião dos judeus
pregava uma atenção especial aos pobres, juntamente com os órfãos e as viúvas,
sobretudo nos livros proféticos; mas a prioridade aos «aleijados, coxos e
cegos» é uma grande novidade, sendo exclusividade de Jesus; essa atenção é
fruto do seu amor infinito pelos últimos. Inclusive, de acordo com a Lei, quem
fosse portador de qualquer deficiência física, incluindo cegos, coxos e aleijados,
não podia sequer entrar no templo (Lv 21,18-20); logo, eram pessoas
extremamente excluídas. E, de repente, Jesus diz que estas categorias devem ser
as convidadas principais do banquete, contrariando a mentalidade da sociedade e
da religião da época.
Para aquele fariseu e seus
convidados, o que Jesus disse foi apenas uma sugestão. Para os cristãos, isso é
compromisso e exigência: não há vida cristã sem luta pela inclusão e pela
superação de todas as formas de discriminação e preconceitos. Ora, naquele
banquete, Jesus viu uma miniatura da sociedade e da religião do seu tempo,
marcadas pela competição e a lógica da retribuição. Por isso, ele investiu
tanto nas críticas, apresentando também a proposta ideal de superação, ao
combater a competição com a humildade e a retribuição com a gratuidade e a
inclusão dos marginalizados. É interessante observar a fórmula “quatro por
quatro”: tirar os privilégios de quatro grupos específicos, e incluir quatro
grupos que representam todas as categorias de pessoas excluídas e
marginalizadas, inclusive da vida religiosa, uma vez que os aleijados, os coxos
e os cegos nem entrar no templo podiam. Assim, o projeto do Reino, anunciado no
Evangelho de Lucas, logo no cântico de Maria, prevendo a ascensão dos humildes
e a queda dos poderosos (Lc 1,52), vai ficando cada vez mais claro.
Não podemos deixar de perceber aqui
uma antecipação da Eucaristia e seu sentido mais profundo: banquete para todos,
motivado por amor-doação, sem exclusão alguma. Na conclusão, Jesus proclama uma
bem-aventurança destinada a quem aceitar o seu projeto de inversão de ordem nas
estruturas e nos costumes exclusivistas, conservados pela religião e a
sociedade da época: «Então, tu serás feliz! Porque eles não te podem
retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos» (v. 14). É
feliz quem assimila a lógica do Reino. A única recompensa para quem acolhe os
mais necessitados, e excluídos em geral, é a certeza do amor de Deus em
demasia. A expressão “ressurreição dos justos”, aqui, não é uma definição
doutrinal, mas significa uma relação tão íntima com Deus que nem a morte
consegue interromper. E, aquilo que garante essa relação é o amor e a
solicitude para com os mais necessitados. Por isso, é necessário repensar,
questionar e até reconfigurar, se for necessário, o banquete cristão, que é a
Eucaristia. Se não ajuda a superar as exclusões e desigualdades do mundo, está
longe de ser a ceia do Senhor.
Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
– Diocese de Mossoró-RN
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