domingo, julho 17, 2016

REFLEXÃO PARA O XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 10,38-42


O Evangelho deste XVI Domingo do Tempo Comum convida-nos a contemplar mais uma etapa do longo caminho de Jesus rumo à Jerusalém. Como bem sabemos, o caminho apresentado por Lucas não é apenas um percurso a ser alcançado, mas é, sobretudo, lugar de revelação, de catequese, auto-afirmação de sua messianidade e de formação do discipulado. Portanto, cada cena presente entre os capítulos nove e dezenove, os quais apresentam o caminho, tem grande relevância. 

O texto de hoje, Lucas 10,38-42, é bastante conhecido. Trata-se do famoso episódio de Jesus na casa das irmãs Marta e Maria. Porém, ser conhecido não significa necessariamente ser compreendido corretamente, e isso tem sido verificado com as diversas versões interpretativas ao longo dos séculos. Durante muito tempo usou-se esse texto para distinguir a vida contemplativa da ativa e, assim, mostrar a superioridade da primeira sobre a segunda. Marta foi rotulada de ativa demais e Maria de contemplativa e, logo, de modelo para a vida monástica.

Infelizmente, e não é a única vez, a versão litúrgica nos priva da integridade do texto, omitindo a primeira parte do versículo 38: "Enquanto caminhavam". Trata-se de uma omissão prejudicial ao entendimento do texto, pois é o elemento de ligação com a cena anterior e o indicativo do contexto da grande viagem rumo à Jerusalém.

"Enquanto caminhavam, Jesus entrou em um povoado" (v. 38a). A princípio, parece haver um erro de concordância verbal, mas é apenas um detalhe do narrador: estavam caminhando Jesus e seus discípulos, mas somente Ele entra no povoado. Se os discípulos continuaram a viagem sozinhos ou o esperaram, não sabemos. Parece um detalhe sem importância, mas não o é. O primeiro motivo para Jesus entrar sozinho é pelo significado de um povoado no seu tempo. Quer dizer lugar de resistência à novas ideias, sede do conservadorismo e do apego às tradições.

O povo simples e tradicional dos povoados não aceitava a mensagem transformadora e libertadora de Jesus. Logo no início da viagem, Ele tinha sido hostilizado em um povoado dos samaritanos e alguns dos seus discípulos reagiram violentamente, querendo destruí-los com fogo (cf. Lc 9,52-53). Certamente Jesus pensou nisso ao preferir entrar sozinho. Outro motivo foi, sem dúvida, porque Jesus sabia que seus discípulos não compreenderiam o que viria a acontecer naquela casa. E, realmente, foi algo revolucionário!

O primeiro grande absurdo da cena é o fato de que Jesus foi acolhido por uma mulher (v. 38b). No seu tempo, a mulher não tinha autonomia para receber um homem em casa. Esse era papel do homem. Enquanto o homem dava atenção ao hóspede, as mulheres da casa permaneciam na cozinha, preparando o alimento e não ousavam, sequer, saudar o hóspede. Por isso, trata-se de algo novo. Merece destaque o gesto revolucionário de Marta ao acolher Jesus. Ela rompeu barreiras. Por isso, será injusto considerá-la negativamente, como fazem a maioria das interpretações. Antes de tudo, ela foi uma mulher de coragem.

Outra coisa absurda é a atitude da irmã de Marta, Maria: "Sentou-se aos pés do Senhor e escutava a sua palavra" (v. 39). O gesto de sentar aos pés não quer dizer adoração nem devoção, como muitas interpretações afirmavam. Sentar aos pés para escutar quer dizer ser discípulo ou discípula. É aceitar o outro como mestre. Podemos recordar o que Paulo diz em relação a Gamaliel, seu mestre: "Eu sou judeu. Nasci em Tarso, da Cilícia, mas criei-me nesta cidade, educado aos pés de Gamaliel" (cf. At 22,3). Portanto, Maria se torna discípula com essa atitude. Também ela rompe muitas barreiras. Esse papel não era permitido às mulheres. 

É claro que a atitude mais revolucionária é de Jesus: aceita a hospitalidade de uma mulher ao entrar em sua casa e permite que uma mulher sente aos seus pés para ouvi-lo. Com isso, ele rompe com todos os padrões de mestre da sua época. Rabino algum do seu tempo aceitava mulheres no discipulado. Aos poucos, vai ficando claro porque Jesus preferiu que seus discípulos não entrassem com ele naquele povoado. Eles não compreenderiam isso tudo. Sua mensagem ganha adesão também no(s) povoado(s). Por mais que o conservadorismo esteja enraizado, ele pode ser superado. A mensagem de Jesus deve penetrar em todos os lugares. A sua palavra é, de fato, eficaz.

Na continuação da narração, Lucas diz que "Marta estava ocupada com muitos afazeres" (v. 40a), algo normal para uma dona de casa, principalmente tendo que preparar refeição para uma visita. É a imagem da dona de casa disciplinada que não perde tempo para manter a casa em ordem e servir da melhor maneira possível às visitas, principalmente uma tão ilustre como o "Senhor", como ela se refere a Jesus. Por isso, ela pede que Jesus intervenha, pois fazendo tudo sozinha, talvez, não conseguisse preparar a refeição a tempo. Mas, ela pede muito! Pedir que Jesus mande Maria para ajudá-la é pedir que ela saia de seus pés, portanto, é privá-la da condição de discípula. Seria negar um direito conquistado, um ato de emancipação feminina. 

A resposta de Jesus ao pedido de Marta é um dos motivos de maior equívoco nas interpretações convencionais do texto. Na verdade, Jesus não a repreende. Pelo contrário, age com muita serenidade e lhe faz um convite: "Marta, Marta" (v. 41). O nome pronunciado duas vezes não é sinal de reprovação, mas de chamado vocacional. Recordemos alguns casos de vocações na Bíblia em que o chamado de Deus se apresenta com essa fórmula: "E Deus o chamou do meio da sarça. Disse: Moisés, Moisés! Este respondeu: Eis-me aqui" (Ex 3,4b); "Iahweh chamou: Samuel, Samuel!" (1 Sm 3,4); "Saulo, Saulo, porque me persegues?" (At 9,4). 

Marta é chamada por Jesus à condição de discípula. Assim como os discípulos pescadores foram chamados a deixar as redes para segui-lo, Marta é chamada a deixar certas preocupações e, assim como sua irmã, optar pela "parte boa" (v. 42). Ser discípulo ou discípula de Jesus é optar pela liberdade, abrir mão de todas as formas de prisão existentes. Esse chamado é aberto a todos e todas. Foi compreendido por Maria e Jesus o estende também à sua irmã. A própria Marta já tinha dado um grande passo de emancipação ao atrever-se a acolher um homem em sua casa. Faltava mais um, sentar-se aos pés do mestre para ouvi-lo. Fazendo isso, ela estaria escolhendo a "parte boa" e, logo, conquistando a liberdade plena. Esse chamado é dirigido a todos os homens e mulheres de todos os tempos.

Como complemento para nossa reflexão, querermos relacionar o texto de hoje com outro texto evangélico, no qual os mesmos personagens compõem a cena: o episódio da reanimação de Lázaro em João 11. À narração lucana, João acrescenta duas informações importantes: o nome do povoado, Betânia, e a presença de um irmão, Lázaro, na casa das duas irmãs. 

Embora Lázaro não seja mencionado no texto de Lucas, é consenso que, juntamente com Marta e Maria, formava uma família-comunidade. Por sinal, nem em Lucas e nem em João se fala de pai e mãe deles. Diz apenas que eram irmãos. E esse dado é muito importante! Ora, na época de Jesus o pai de família exercia poder absoluto na casa. Na comunidade ideal, marcada pelos valores do Reino, não há espaço para a autoridade porque as relações são caracterizadas pela fraternidade e, portanto, pela igualdade.

Acreditando que Marta respondeu 'sim' ao chamado de Jesus, podemos afirmar que sua família é o verdadeiro retrato da comunidade cristã: todos escutam com atenção ao Mestre e vivem como irmãos, sem relação de poder, mas de igualdade e fraternidade.



Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

domingo, julho 10, 2016

REFLEXÃO PARA O XV DOMINGO DO TEMPO COMUM - LUCAS 10,25-37

A liturgia desse XV Domingo do Tempo Comum, coloca-nos em contato com uma dos textos mais belos e conhecidos de todo o Novo Testamento, a chamada parábola do bom samaritano. Trata-se de um texto próprio de Lucas, inserido na dinâmica do longo caminho empreendido por Jesus rumo a Jerusalém. É um daqueles episódios em que Jesus esbanja misericórdia, o que é muito comum no Evangelho segundo Lucas.

A parábola é usada como uma das respostas de Jesus em um interessante diálogo com um mestre da lei, assumindo a centralidade de todo o colóquio e constituindo-se como uma das principais páginas do terceiro Evangelho.

Diz o texto que "um mestre da lei se levantou e, para tentar Jesus, fez-lhe uma pergunta" (v 25a). Lucas apresenta aqui o mesmo verbo usado no episódio das tentações (cf. Lc 4,1-13): εκπειραζω (ekpeirazô), cujo significado é tentar, pôr alguém à  prova. Esse indicativo é importante porque já confere um caráter diabólico às intenções do mestre lei, pois, tentar Jesus, pondo-o à prova é a atitude de satanás, conforme a linguagem bíblica e lucana, principalmente.

Após apresentar a intenção e a atitude do mestre da lei, tentar Jesus perguntando, temos, então, o conteúdo da pergunta: "Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?" (v. 25b). Se trata de uma pergunta muito profunda e bem elaborada, própria de um bom conhecedor da Escritura, como, de fato ele era.

Como era próprio da cultura dos rabinos responder a uma pergunta com outra pergunta, Jesus assim o faz, e responde perguntando exatamente o que a lei dizia a propósito da observação do interlocutor. Como bom conhecedor, o mestre da lei responde prontamente com duas citações da Escritura: "Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência (cf. Dt 6,5); e ao teu próximo como a ti mesmo (cf. Lv 19,18). Resposta própria de quem examinava a lei dia e noite, como era seu ofício.

A continuidade do diálogo mostra a exterioridade e superficialidade daquele mestre da lei. Teoricamente, seu conhecimento era perfeito, tanto que o próprio Jesus reconheceu: "Tu respondeste corretamente. Faze isso e viverás" (v. 28). Mas, sua tentativa de justificar-se demonstrava o quanto era limitada sua religião. Ele conhecia todas as passagens da Escritura, era um intérprete oficial e no entanto não sabia quem era seu próximo.

E, percebendo o vazio de sentido naquela religião estéril defendida e praticada pelo mestre da lei, Jesus aproveita a oportunidade para apresentar um dos seus mais célebres ensinamentos, com a parábola do samaritano, como resposta.

Disse Jesus que "certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes" (v. 30a). Ora, embora a distância entre as duas cidades não fosse tão grande, apenas 27 km, grandes obstáculos componham aquele caminho. A começar pelo desnível entre as duas cidades. Enquanto Jerusalém estava a mais de 700 metros acima do nível do mar, Jericó estava a aproximadamente 300 metros sob o nível do mar. Além disso, tinha de atravessar o deserto de Judá. Era uma estrada tão perigosa, que somente se andava em grupo, considerando tanto os obstáculos da natureza quanto o perigo dos assaltantes. Logo, Jesus não apresenta nenhuma novidade, uma vez que eram comuns os assaltos naquela estrada.

Na descrição do assalto, Jesus acrescenta detalhes, enfatizando que os assaltantes, além de espancar o homem, levaram tudo e o deixaram quase morto (v. 30b). Claro que há, nisso tudo, uma clara intenção teológico-literária de Lucas visando supervalorizar a atitude do samaritano e contrapô-la à indiferença do sacerdote e do levita.

"Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho" (v. 31a), ou seja, estava voltando de Jerusalém após uma semana inteira de serviço no templo, conforme a distribuição das classes sacerdotais durante o ano litúrgico judaico. Portanto, estava em seu grau máximo de pureza. Por isso, "quando viu o homem, seguiu adiante pelo outro lado" (v. 30b), exatamente porque o contato com um homem quase morto o tornaria impuro também, conforme determinava a lei. A lei estava acima da vida para a religião judaica do tempo de Jesus. O sacerdote cumpre rigorosamente a lei pela metade, assim como o mestre interlocutor de Jesus. Tem dificuldade em reconhecer quem é o seu próximo porque vivia uma religiosidade meramente ritualista e vazia de amor.

A mesma indiferença do sacerdote é repetida por um levita, o auxiliar dos sacerdotes no serviço litúrgico do templo: "chegou ao lugar, viu o homem e seguiu pelo outro lado" (v. 32). Como bom 'sacristão', o levita não poderia ter outro exemplo a seguir senão o do sacerdote, por isso, imita seus gestos, inclusive a indiferença diante do sofrimento do outro. Como voltava do serviço litúrgico, não queria contaminar-se com um quase morto, certamente ensaguentado do espancamento.

A verdadeira afronta de Jesus ao mestre da lei vem colocada a partir do versículo 33, quando ele diz na parábola que "um samaritano que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão". Como sabemos, os samaritanos eram mal vistos pelos judeus. A maior ofensa que um judeu poderia receber era ser chamado de samaritano. Era o mesmo que dizer herege, pecador, impuro... alguém da pior qualidade possível.

O próprio Jesus com seus discípulos tinham sido rejeitados pelos samaritanos no início do caminho, como vimos há dois domingos atrás, no XIII (cf. Lc 9,53), e hoje Jesus apresenta um samaritano como alguém que age como Deus. De fato, ver e ter compaixão, são atitudes próprios de Deus. E, infelizmente, os homens que pareciam conhecer a Deus, o sacerdote e o levita, não conheciam seus sentimentos, mas um infiel aos olhos da religião.

O sacerdote e o levita viram o estado miserável em que se encontrava o homem, mas foram para o outro lado do caminho. O samaritano viu, sentiu compaixão e aproximou-se. Duas atitudes completamente opostas. A compaixão do samaritano fez com que ele se aproximasse e cuidasse do homem. Quase dez verbos são usados na sequência do texto, e todos eles são verbos de ação. Assim, Jesus contrapõe a omissão dos praticantes da religião à ação movida de compaixão da parte do herege, comovendo ainda mais o mestre da lei.

Um vez que a parábola foi contada como resposta à pergunta "E quem é o meu próximo?" (v. 29), Jesus devolve novamente uma pergunta ao mestre: "Na tua opinião qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?" (v. 36). Da pergunta de Jesus emerge um dado muito importante: o próximo não é, o próximo faz-se. Para os judeus, o próximo era o parente, o companheiro de religião e, no máximo, o estrangeiro radicado entre eles. Portanto, era um categoria estática. Jesus diz, com a parábola e a pergunta final, que o próximo faz-se, ou seja, são as circunstâncias que tornam alguém próximo.

A resposta do mestre à pergunta de Jesus é correta, embora ele mesmo não a aceite: "Aquele que usou de misericórdia para com ele" (v. 36a) foi o próximo. Dois aspectos chamam a atenção nessa resposta: primeiro, o mestre evita mencionar 'o samaritano', diz apenas 'aquele'; segundo, usar misericórdia é atribuído somente a Deus em todo o Antigo Testamento e apenas a Jesus no Novo. 

A única vez em que se atribui a um homem o uso da misericórdia é aqui. E não se atribui a um homem da religião, mas a um herege. E, de todos os envolvidos na parábola, foi exatamente o apresentado como exemplo. Por isso, Jesus aconselha ao mestre da lei: "Vai e faze a mesma coisa" (v. 37).

Com isso, Jesus aconselha o mestre da lei e a todos, de ontem e de hoje, a abrir mão de todos os preceitos impostos pela religião e perceber que o amor a Deus e ao próximo são inseparáveis.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

sábado, junho 18, 2016

REFLEXÃO PARA O 12º DOMINGO DO TEMPO COMUM (LUCAS 9,18-24)

A reflexão acerca de Lc 9,18 - 24, texto evangélico deste 12º Domingo do Tempo Comum, obriga-nos a olhar para todo o capítulo nono do terceiro Evangelho e, nesse, situar a passagem em questão, para melhor o compreendermos. 

O capítulo nono de Lucas se inicia com o envio missionário dos Doze para proclamar o Reino de Deus e curar (cf. 9,1-2). Eles foram de povoado em povoado (cf. 9,6). A repercussão da missão foi tanta, a ponto de chegar aos ouvidos do tetrarca Herodes (cf. 9,7-9). O retorno dos discípulos missionários foi marcado pelo entusiasmo, fazendo aumentar, ainda mais, a multidão que seguia Jesus, culminando com o episódio da partilha dos pães (cf. 9,10-17). 

A recordação desses fatos é imprescindível para a compreensão do texto que a liturgia nos oferece pelos seguintes aspectos: (a) os Doze foram enviados para anunciar o Reino; um modo de Jesus saber se o anúncio fora bem feito é conhecendo o que o povo aprendeu. As variadas respostas das multidões comprometem a qualidade da missão e do anúncio; (b) o tumulto criado no retorno dos discípulos leva Jesus a uma espécie de parada, tipo um retiro. Por isso, Ele se retira para rezar em um lugar afastado; o clima de oração cria também o clima para as perguntas íntimas que irá fazer aos discípulos. 

Considerando esses aspectos, nós podemos, finalmente, olhar para o texto de hoje. A primeira informação apresentada é de que Jesus estava com seus discípulos em um lugar reservado para rezar (v. 18). É próprio de Lucas apresentar Jesus em oração, principalmente como antecedente de tomadas importantes de decisões e de momentos decisivos na sua vida: passou a noite em oração na véspera da escolha dos Doze (cf. 6,12), estava em oração no momento da transfiguração (cf. 9,28), ensinou seus discípulos a rezar (cf. 11,1-2), rezava na turbulenta véspera da Paixão (cf. 22,40ss). Esses são apenas alguns exemplos. Portanto, quando Lucas apresenta Jesus em oração, ele indica a importância do episódio.

No entanto, aquele momento de Jesus sozinho com os discípulos não era apenas de oração, mas, principalmente, de formação. Jesus formava continuamente seus discípulos, considerando a novidade de seus ensinamentos e a forte tendência de má interpretação. Por isso, era necessário passar muitas horas ensinando.

Jesus não ensinava apenas expondo conteúdos, mas perguntando, exortando e provocando. Assim, as perguntas que hoje Ele dirige aos Doze, não constituem uma pesquisa de opinião pública sobre a sua popularidade, mas retratam uma preocupação com a forma como a sua mensagem estava sendo anunciada e acolhida, principalmente após a missão dos Doze em diversos povoados (cf. 9,1-6), pois a qualidade do anúncio era reflexo da formação recebida pelos discípulos. Por isso, Ele se preocupa.

Sua preocupação não é com a popularidade, mas se a sua mensagem está sendo compreendida. De fato, é isso o que preocupa Jesus. Daí a pergunta: "Quem diz o povo que eu sou?" (v. 18). Em outras palavras, Jesus pergunta que imagem o povo está tendo dele. Pela resposta dos discípulos, há uma certa confusão na cabeça do povo, já que uns dizem ser o Batista, outros Elias ou algum dos profetas. Na verdade, os discípulos omitiram algumas imagens de Jesus, pois para os fariseus e outros grupos, Ele não passava de um charlatão. Certamente eles não ouviam apenas comentários positivos a respeito do Mestre que nem parecia mestre!

As respostas selecionadas são uma tentativa de engrandecimento de Jesus da parte dos discípulos, uma vez que estas colocam Ele no nível de personagens importantes da tradição judaica antiga (Elias) e recente (João Batista). Em outras palavras, os discípulos dizem a Jesus que o povão o vê como um profeta. Para Jesus, isso não é satisfatório. Principalmente, porque o seu perfil não se alinha muito com as características dos profetas citados. 

Elias e João Batista foram grandes homens, sem dúvida, mas muito diferentes de Jesus. Elias foi um profeta virtuoso para o seu contexto, mas defensor da guerra em nome de Yhaweh contra o culto a baal (cf. 1 Rs 18 - 19). João Batista, com sua austeridade, preferiu isolar-se no deserto ao invés de lidar diretamente com o povo no dia-a-dia. Portanto, as imagens de Jesus que estavam sendo construídas não eram as mais adequadas. Certamente era um prestígio ser comparado e até confundido com personagens tão importantes. Mas, seu papel, sua metodologia e sua mensagem eram muito diferentes. Portanto, a resposta dos discípulos foi algo preocupante para Jesus. Por isso, Ele quis saber a opinião deles próprios.

Consciente da confusão causada no povo quanto à sua identidade, a pergunta aos discípulos é bem precisa: "E vós, quem dizeis que eu sou?" (v. 20a), ou seja, e vocês, o que acham de mim? Sejam sinceros... Daí, Pedro toma a palavra e responde prontamente: "Tu és o Cristo de Deus" (v. 20b). Essa resposta afirma a messianidade de Jesus, ou seja, Pedro diz que Ele é o Messias de Deus, portanto, o esperado. Resposta correta, mas também não satisfatória.

Ora, a figura de messias na cabeça de Pedro, era a do messias davídico, portanto, a do restaurador, guerrilheiro e dominador. Era essa a imagem do messias esperado por tantos séculos em Israel, e Pedro, juntamente com os Doze, estavam convictos de ter chegado, e mais ainda dos privilégios que teriam quando Jesus assumisse o poder em Jerusalém. 

Por conhecer a mentalidade de Pedro e, portanto, sua ideia de messias, Jesus o proíbe severamente de contar isso a alguém (v. 21). A severidade da proibição indica a gravidade da afirmação de Pedro. Certamente foi essa a imagem que ele transmitiu de Jesus na missão realizada pouco tempo antes (cf. 9,1-6). Com isso, Jesus diz que é melhor ficar calado que anunciá-lo distorcendo a sua mensagem. 

Após combater severamente a mentalidade equivocada dos discípulos, Jesus procura esclarecer a sua verdadeira identidade.  E, o faz recordando, exatamente, a sua condição de homem, através da misteriosa expressão "O Filho do homem" (v. 22a), o que quer dizer que Ele era verdadeiramente homem. Sendo verdadeiro homem, não estava isento do sofrimento nem da rejeição, muito menos da morte. Por isso, cita aqueles que serão os responsáveis diretos pela sua condenação: os anciãos, os sumos sacerdotes e os doutores da lei (v. 22b), os três grupos que compunham o Conselho máximo de Jerusalém, o Sinédrio, símbolo do poder. Se Ele será morto pelo poder, é porque sua proposta de vida não contempla esse. Pelo contrário, ao invés de poder, a característica do seu ensinamento é o serviço.

Indo mais além, Ele abre completamente o jogo: Esse homem a quem vocês estão seguindo, "deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia" (v. 22c). Certamente, Pedro e seus companheiros jamais tinham imaginado que o destino do Messias seria esse.

Como tínhamos recordado no início, essa recolhida com os Doze em lugar reservado não seria apenas para rezar, mas também para formar e ensinar, e eis, então,  o ápice da formação: Esse messias vai sofrer muito, até morrer; porém, há de ressuscitar ao terceiro dia, ou seja, em plenitude. Se vai morrer verdadeiramente como homem, vai ressuscitar, também verdadeiramente, por ser Deus.

O autor do Evangelho não descreve a reação dos Doze após as afirmações do versículo 22, mas certamente ficaram perplexos, tristes e até indecisos. As entrelinhas apontam para isso, o que se conclui com a sequencia do texto (v. 23): "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga"; se estavam só Ele e os Doze, isso foi direcionado para eles. Provavelmente, alguns pensaram em desistir do seu seguimento ao ouvi-lo falar de morte e cruz, e isso o leva a abrir cada vez mais o jogo, ou seja, deixa claro quais são as consequências do discipulado. Ainda há tempo de voltar atrás! 

Por fim, suas últimas palavras são, de fato, uma reviravolta na mentalidade dos discípulos. Ele apresenta uma dinâmica totalmente nova, jogando por terra a ideia ultrapassada de messias, presente na mente dos Doze e em Israel como um todo. O seu Reino não pode ser imaginado segundo as concepções habituais de seu tempo.

Há critérios e exigências para o seguimento autêntico de Jesus. Aceitar ou não, é pessoal. Mas, uma vez aceitando, devemos procurar o seu verdadeiro rosto, a sua verdadeira identidade e assumir as consequências. Segui-lo não é invocar sua proteção e privilégios; é dar a vida como Ele. Quem tem medo de doar a vida não pode ser seu discípulo.

Última colocação: Se a imagem ou imagens que se tem de Jesus são equivocadas, é porque Ele está sendo mal anunciado!

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues




domingo, junho 12, 2016

REFLEXÃO PARA O XI DOMINGO COMUM - LUCAS 7,37 - 8,3

O texto evangélico proposto pela liturgia para o XI Domingo do Tempo Comum compreende uma das cenas mais belas de todo o Evangelho de Lucas: uma mulher de má fama invade a casa onde Jesus está participando de um banquete e rouba a cena. É desse encontro inesperado que se revela uma das principais novidades, senão a maior, de todo o programa de Jesus: Ele acolhe pecadores e perdoa os pecados (v. 48). Além dessa, o texto nos traz outra novidade: a presença de mulheres no discipulado de Jesus (8,1-3), algo escandaloso para a sua época.
O fato de que um fariseu convidou Jesus para uma refeição em sua casa (7,36) é algo que já nos traz alguns questionamentos, pelo menos, a respeito das motivações para tal convite. É certo que a fama de Jesus estava se espalhando cada vez mais, em virtude dos sinais realizados, principalmente os últimos: a cura do servo do centurião (7,1-10) e a reanimação do filho da viúva de Naim (7,11-17). Nesse último, o fato teve uma repercussão ainda maior, pois Jesus foi reconhecido como um grande profeta (7,16). 
É impossível que esses acontecimentos não tivessem causado curiosidade entre os fariseus. E, uma forma de estarem eles bem à vontade com Jesus para fazer-lhe perguntas, conhecer a sua maneira de interpretar a Lei, seria exatamente em um banquete, oportunidade em que estariam em clima descontraído e, portanto, poderiam fazer as mais variadas perguntas. Seria um momento para a classe farisaica tirar algumas conclusões daquilo que já escutavam sobre Jesus, inclusive sua má fama de comilão e beberrão, amigo de pecadores e publicanos (cf. 7,34-35).
Se eram essas as intenções do anfitrião e dos demais convidados, as mesmas foram contempladas, uma vez que, do nada, entrou uma mulher pecadora na sala onde faziam a festiva refeição (7,37). Era uma pecadora pública, cuja fama  era conhecida em toda a cidade. Daí, o fato de a tradição ter intitulada-lhe de prostituta, o que pode ser confirmado pelos seus gestos obscenos para a época: soltar os cabelos (7,38). De fato, o cabelo de uma mulher, no mundo bíblico, era considerado parte íntima, e portanto, tinha um valor erótico, por isso, devia estar sempre coberto.
Somente homens poderiam participar de um banquete como esse. A refeição era realizada na sala, onde ficavam somente o anfitrião com os convidados. A sala ficava aberta para rua, para que aqueles que passassem pudessem perceber que estava havendo festa e, assim, fazer algum juízo sobre a qualidade do banquete. As mulheres e as crianças permaneciam na cozinha ou em outros aposentos da casa; não poderiam participar, nem mesmo olhar para a sala. 
Foi, certamente, em momento de distração que a mulher pecadora entrou. Ela soube que Jesus estava à mesa na casa do fariseu (7,37) e para lá se dirigiu consciente de todos os perigos: ela poderia ser identificada logo na chegada e, até apedrejada. Portanto, sua decisão de ir até lá foi corajosa; ela queria encontrar-se com Jesus a qualquer custo, pois também ela tinha notícia da fama de Jesus, sabia que Ele acolhe pecadores (cf. 7,34-35).
Ao contemplar Jesus, a sua comoção é geral, não contendo-se, derrama muitas lágrimas, banhando, com as mesmas, os pés de Jesus e enxugando-os com os cabelos (7,38). Enquanto ela demonstrava sinceridade, arrependimento e alegria por, finalmente, ter encontrado um homem que não lhe tinha olhado com segundas intenções. Antes de seu encontro com Jesus, ela só tinha recebido dois tipos de tratamento: uns se aproximavam para possui-la e outros para julgá-la. Por isso, suas lágrimas são de alegria, não de remorso; alegria por ter recebido atenção de um homem que não a condenava nem a desejava, e isso foi decisivo para o seu arrependimento e mudança.
A cena é comovente e forte, a ponto de muitos biblistas considerarem um dos trechos mais belos e profundos de todo o Evangelho de Lucas. Para alguns, é a obra prima de todo o conjunto do terceiro Evangelho. 
O comportamento de Jesus diante dela levou o fariseu a tirar também uma conclusão, míope e mesquinha, é claro, como é típico de quem vive à sombra da lei: Se esse homem  fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora (7,39). Nem foi necessário que o anfitrião expressasse esse pensamento em alta voz, mas só no pensamento, e Jesus conhece o pensamento de cada um. O fariseu conclui que não passa de farsa a fama de Jesus como profeta. Isso porque ele também não sabia o que é ser profeta, pois os seus olhos voltados rigidamente para a Lei não permitiam.
Conhecendo seu pensamento, Jesus conta uma pequena parábola, e nessa, coloca em cena o próprio fariseu. Ao perceber que a parábola lhe fora dirigida, diante da pergunta de Jesus, sobre quem amará mais ao credor: aquele a quem pouco foi perdoado ou aquele a quem muito foi perdoado, a sua resposta é fria, própria de quem não absorveu o ensinamento de Jesus: Acho que é aquele ao qual perdoou mais (7,43).
A partir da resposta recebida, Jesus advoga em favor da mulher, mais uma vez, e elenca alguns aspectos dos quais sentiu falta ao ser acolhido na casa do fariseu. Esse faltou com elementos básicos de cordialidade no mundo judaico, enquanto a pecadora esbanjou amor, acolhida e arrependimento com seus gestos aos pés de Jesus.
Aos olhos do fariseu anfitrião, Simão, e demais convidados, as aberrações de Jesus continuam quando Ele diz à mulher: Os teus pecados estão perdoados (7,48). Ora, como pode, aquele que nem profeta é, perdoar pecados, se essa é prerrogativa de Deus, apenas? Com isso, Lucas, artisticamente, apresenta mais um paradoxo desconcertante: para quem dizia que Jesus nem profeta era, Ele mostra que é Deus, tendo autoridade para perdoar pecados e justificar. Certamente, tinha acabado o clima para o banquete continuar.
Para concluir, não podemos esquecer os três últimos versículos do trecho, já no capítulo seguinte (8,1-3): a presença de mulheres no discipulado de Jesus, andando com Ele e os doze, são a prova concreta de sua acolhida e abertura universal. Certamente, a pecadora do banquete tornou-se discípula também! E, com isso, mais uma vez, Ele tem sua reputação posta em questão pelos fiéis observadores da Lei, mas, ao mesmo tempo revela o rosto misericordioso do Pai, por tantos anos encoberto pelas cortinas da lei, do rigor e do fundamentalismo de outrora e de hoje. 


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues

REFLEXÃO PARA O 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 18,21-35 (ANO A)

A liturgia deste vigésimo quarto domingo do tempo propõe a continuação da leitura do “discurso comunitário” do Evangelho de Mateus. O trec...